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“Falsa Loura” começa com uma panorâmica que desnuda a cidade de Silmara -vivida pela belíssima atriz Rosanne Mulholland- a ‘falsa loura’ que dá o titulo ao filme. A ‘fusão’- artifício estilístico ‘batido’, mas que nas mãos de Carlos Reichenbach ganha beleza e força dramática em toda a obra- indica a dupla exposição de todo fragmento contido na narrativa, seja na oposição das “Silmaras”, na ‘ostentação’ de seus sonhos e de sua realidade, nas canções “românticas-bregas” e nas músicas refinadas. O diretor caminha por essa esfera de embates, e nos lega uma obra sóbria, coisa rara no cinema nacional. Difícil ficarmos indiferentes na cena onde a protagonista humilha suas amigas, dizendo que nenhuma pessoa além dela crescerá na vida. Aqui a reação é direta e é “completada” na cena posterior, onde o diretor nos esfacela ainda mais, Silmara chegando em sua casa, entregando a encomenda que seu pai havia lhe pedido: ‘a comida para alimentar o passarinho’. Se alguns ainda duvidam que exista algo entre o grande cineasta Howard Hawks com a recente obra do autor de “A Ilha dos Prazeres Proibidos”, é tão somente neste sublime plano que a dúvida se esvai. O cinema invisível aparece. Um furo imenso é aberto em cada espectador.

Silmara ama cuidar de seu pai – um homem desfigurado que quer se esconder de todos, até de seu único amor. Os homens possuem essa ‘virtude’ na obra, são eles que farão Silmara enxergar o quão a vida é espúria, bela, nociva e divertida: seu pai, o cantor de rock, o cantor romântico, um garoto, e seu ex-namorado. A seqüência onde o garoto, filma, com a câmera, o passeio de Silmara com o cantor romântico, vivido por Maurício Matar, é uma das mais tocantes não só da atualidade, mas também da filmografia nacional. Nela há mais do grande Valerio Zurlini- admiração confessa do diretor- do que na homenagem explicita: a seqüência da dança onde o menino observa o casal.

Ninguém duvida que o cinema nacional tenha crescido tanto de uns tempos pra cá. A questão é saber para onde cada cineasta brasileiro pretende seguir. Alguns preferem saborear o caminho do quadro-negro, da panfletagem, das ideologias baratas, e se esquecem que o cinema é anulado quando estes fatores clamam por alguma soberania. Reichenbach foi sábio, segue para o caminho oposto. No plano final do filme, a protagonista caminha em direção à sua realidade. “Falsa Loura” encontra um pilar que o cinema nacional havia perdido: a honestidade para com a sétima-arte e para com o espectador.
criado por Aerton Martins
14:00:20