Cinema na Mangueirosa

Dedicado aos que amam cinema. A música também pintará por aqui, sobretudo Rock n Roll.

3/10/08

O grito de Lachenay

 

Eis uma pequena pérola que entrego a vocês, leitores. O texto não é imenso, mas foi com esse pequeno grito que li em uma revista de cinema , em uma época distante- revistas avermelhadas que se pareciam mais com prédios, de tão finas que eram- que fez este blogueiro olhar o cinema de outra maneira. Um dos grandes pensadores da sétima-arte:

"André Bazin gosta muito de Cidadão Kane e Soberba, um pouco de A Dama de Xangai e Otelo, pouquíssimo de Jornada do Pavor e Macbeth, e nada de O Estranho. Cocteau gosta muito de Macbeth mas não de O Estranho. Sadoul gosta demais de Kane e de Soberba mas não aprecia nem um pouco Jornada do Pavor e Macbeth. Quem tem razão? Apesar do respeito que tenho por Cocteau, Bazin e Sadoul, prefiro filiar-me à opinião de Astruc, Rivette, Truffaut e tutti quanti que adoram sem distinção todos os filmes de Welles porque eles são filmes de Welles e não parecem com nenhum outro, por uma certa atuação de Welles que é um diálogo shakespeariano com o céu (o olhar passando por sobre a cabeça de seus comparsas), por uma qualidade da imagem que deve menos à plástica do que a um notável senso da dramaturgia das cenas, por uma invenção perpétua verbal e técnica, por tudo isso que cria um estilo, esse “estilo Welles” que encontramos em todos seus filmes, sejam eles luxuosos ou esquartejados, filmados de forma rápida ou lenta. Eu ainda não vi Relatório Confidencial, mas eu sei que é um bom filme porque ele é de Orson Welles, e mesmo que Orson Welles quisesse fazer um filme de Delannoy ele não conseguiria. O resto é tagarelice de fofoqueira."

Robert Lachenay

P.s: Robert Lachenay é um dos vários pseudônimos que o grande François Truffaut ultilizava à época de suas escritas abençoadas na ‘Cahiers du Cinema’. Pegou emprestado o nome de seu amigo de infância que o acompanhava nas sessões de cinema. Truffaut também deu o sobrenome Lachenay para alguns personagens de seus filmes.

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24/9/08

A porta é o idiota

 

“Os idiotas são como portas, há sempre quem as deixa abertas”.
Da obra “Nouvelle Vague”, de Jean-Luc Godard.

“Achar graça e chorar são reações naturais na sala escura, já gargalhei e chorei em muitos filmes”. Disse exatamente essas palavras ao público que esteve presente na sessão do filme “Terror na Ópera”. Não custa repetir aqui. Um conhecido cuspiu em meu ouvido: “não apareço mais na sessão maldita porque sempre tem um louco que estraga tudo”. Se fosse só ele a reclamar. Mas não. Outros dizem que a liberdade de expressão está aí para ser respeitada. Imaginem a cena: um cara se levanta e começa a bater papo com seu namorado no meio da sessão, outro joga game no celular e outro grita tal qual o capitão Nascimento. Cinema não é espaço de Maria-fofoqueira, não é salão de jogos e muito menos quartel.

 

Essa galinhagem não é liberdade de expressão, mas sim cristalização e incitação ao idiotismo. Utilizando a analogia de Godard: “na maldita há sempre uma porta aberta”. Na abertura do ciclo japonês, com a obra “Onibaba”, pude sentir uma “porta” fazendo um barulho insuportável. Ela gritava a todo instante: “beija ela, tarado, ta na secura”. Falo pela enésima vez: nem no teatro interativo existe tamanha interação! Uma das coisas mais nojentas que já vi na vida, e olha que todo dia me vejo nu. Na sessão que teve “Pavor na Cidade dos Zumbis” como prato principal, tive que lançar o termo “palhaço”, em voz alta, a fim de fechar uma. Tive que agir por segundos como uma porta. Coitada da minha amiga Jéssica, que estava do meu lado, tomou um susto com minha rispidez repentina. Mil perdões, companheira.

 

Se a porta se abre só um pouquinho, normal. Mas na maldita quando uma porta se abre ela insiste em não se fechar. O idiota quer fazer da sessão inteira sua pocilga e pensa que o público inteiro quer se sujar. Não! O público não é porco. Ele tem que ser respeitado. Por fim, vamos gargalhar e chorar, ou fazer cara feia, para “Tortura”, 1972, (Don’t Torture a Duckling) de Lucio Fulci, filme que encerra o ciclo “A História Secreta do Cinema de Horror Italiano” neste sábado, 27/09. Só tenho receio de apenas uma coisa: de me deparar com alguma porta escancarada. Nada é perfeito.

criado por marklewis    18:25 — Arquivado em: Sem categoria

17/9/08

Meus ouvidos agradecem

Admito que nunca tive paciência para o que  muitos pregavam como “movimento musical”  em nossa mangueirosa. Era muito cão sem latido. De uns anos pra cá a coisa mudou de figura. A cidade ganhou mais força, mais viço. A pluralidade paraense no terreno musical, agora, é palpável. Falo isso pois o momento é oportuno. Nesta sexta-feira, dia 19/09, começará a terceira edição do “Festival Se Rasgum no Rock”. Três dias de muita música. Plebe Rude, Johny Rockstar, Canastra, Curumim, Suzana Flag, Wado e mais um punhado de atrações. É claro que chamar grupos de outras regiões para o festival é salutar. Afinal, temos que conhecer o que anda acontecendo no Brasil. Mas não seria exagero dizer que as bandas locais, sozinhas, dariam conta do recado. Conheço pouca coisa das atrações de fora. Com as exceções de Wado, Plebe Rude e o Canastra, todo mundo é estranho para mim. Graças a Deus! É sempre bom ser pego de surpresa. Parece que haverá um dia exclusivo para as bandas paraenses. Sábia decisão. Ver essa turma  no mesmo dia será a confirmação de que Belém anda ficando cada vez mais paid’égua.

Temos um caldeirão entupido e diversificado. Uns dizem que Belém teve seu “momento” na virada dos anos 80 para o 90. Outros dizem que a “sopa” nem chegou a esquentar. Hoje temos o que comemorar? Sim. Suzana Flag é diferente de Stereoscope, que por sua vez é diferente do Turbo, Madame Saatan, Cravo Carbono, Johny Rockstar e por aí vai. Difícil não se emocionar com o som encorpado e melódico do “Suzana Flag”. A banda recentemente fez um showzaço no Café com Arte para lançar algumas músicas do sucessor do sublime “Fanzine”. Alguns dizem que a banda, nascida em Castanhal, carrega uma sonoridade parecida com a do grupo “Pixies”. Pode até ser, mas na humilde opinião deste blogueiro, a casquinha também é tirada do Franck Black em sua ótima carreira solo. E isso não é nada ruim.

Turbo e Johny Rockstar são grupos liderados por dois remanescentes da finada “Eletrola”. O primeiro tem a potência sonora de um MC5, o segundo é uma espoleta pop rock que deixaria Ray Davies com um sorrisão no rosto. E o incrível La Pupuña com a mistura de The Ventures e guitarrada paraense? Ó minha maravilhosa Belém. Meus ouvidos agradecem. Eu tinha planejado para este post falar sobre o Anima Mundi, famoso festival de animação que começa hoje no Cine Estação. Àqueles que quiserem ficar com o traseiro na poltrona, servidos por um monte de chatices, desejo boa sorte. Façam suas apostas  para este fim de semana porque eu já fiz a minha.

criado por marklewis    15:55 — Arquivado em: Sem categoria

9/9/08

Um miquinho apenas

 

Domingo. O ano era 1996, novembro. Amanheci trabalhando com meu pai. Vi o sol nascer com uma garrafa de Coca-Cola nas mãos. Caminhei até a praça matriz com ele e me despedi. Minhas pernas estavam destruídas. Meu corpo gritava por um banho e por uma cama. Acho que nunca gastei tanta força, física, como naquele dia.

 

Era de se esperar que eu – apelidado por meus amigos de “o homem sofá”- chegasse em casa e despejasse minha estafa nos cômodos sofridos. Não consigo dormir quando estou muito cansado. Pode parecer sinal de loucura mas é a pura verdade. No Circuitocinearte tinha acabado de entrar em cartaz o filme “Tempo de Matar”, de Joel Schumacher. No dia anterior, minha cabecinha planejou assistir o filme, que ainda vinha como brinde a maravilhosa Sandra Bullock.

Consegui fechar os olhos, mas não por muito tempo. Saltei da cama com a gritaria do jornaleiro na rua. Percebi que ainda era cedo, muito cedo. Nas manhãs dominicais era de praxe eu receber a visita de um grande amigo, Cláudio, e neste dia não foi diferente. Meu caro  chegou em casa com uma proposta indecente: “está passando "Fuga de Los Angeles" no Palácio, vamos”? Atribuo minha mudança de planos a um único  motivo: a amizade. Esta palavrinha que ajuda-nos a suportar este mundão, sórdido e porco,  fez com que minha pequena dose de bom senso sumisse. Não recordo-me como um outro amigo nosso, Marcelo, se meteu, também, nesta arriscada aventura.

 

Os cinemas de rua davam uma coisa que os cinemas de shopping não dão: a música mecânica antes da sessão. E eu adorava isso. Entramos no Cine Palácio servidos pela famosa música do filme ?!?!?!?!?. O cinema estava vazio. Não me contive. Dei minhas piruetas até o começo do corredor, tentando imitar o ator Gregory Hines em “O Sol da Meia Noite”. E o “Fuga de Los Angeles”? Dormi o filme inteiro. Um miquinho apenas não faz mal a ninguém.

Post dedicado aos  queridos  ( e calhordas) Cláudio e Marcelo.

criado por marklewis    17:44 — Arquivado em: Sem categoria

2/9/08

A História Secreta do Cinema de Horror Italiano

APRESENTAÇÃO

Foi na Itália de Federico Fellini e Luchino Visconti que surgiu os nomes que imortalizaram o gênero horror. De um lado, Dario Argento, que de aprendiz esforçado dos filmes de Hitchcock, se transformaria em um grande maestro imagético com as obras-primas "Terror na Ópera" e "Profondo Rosso". De outro, Mario Bava, com sua ironia mordaz deu ao cinema seu mundo fantástico e cheio de cores e, também, pincelou o que viria a ser chamado de "Giallo"- filmes de suspense italianos. E por último, Lucio Fulci, diretor versátil, que começou realizando comédias pueris, depois westerns, até chegar ao gênero que o fez um dos mais brilhantes realizadores do cinema, o "horror". É em cima dessa trinca que o cinema pôde sonhar, se libertar e exagerar. Em comemoração ao aniversário de um ano do grupo Fellinianos- grupo que retomou a sessão maldita no segundo semestre de 2007- a APJCC, em parceria com o Cine Líbero Luxardo, apresentará ao público paraense o pungente e secreto cinema de horror italiano.

Aerton Martins (Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema- APJCC)

Nada mais justo homenagear essa turma da Itália. Aproveito para pagar outras dívidas que tenho. Agradeço pela força e dedicação de minha querida amiga Fábia. Pelo apoio de meus confrades da APJCC. Aos que tomam conta do Cine Líbero Luxardo, Augusto Pacheco, Cauby Erick, João Cirilo e, mesmo distante, Mariano Klautau Filho. Agradeço, também, ao meu caro Ronaldo Passarinho, que sempre divulgou as exibições alternativas de Belém.

Agora abro espaço para uma rasgação de seda. Deixo neste espaço o Link que vai para um texto do blog "Bressonianas"-  http://bressonianas.zip.net/arch2006-09-10_2006-09-16.html - que pertence ao cara que fez o Mark enxergar o quão importante é o trabalho de cineclubista, Adolfo Gomes. Nele vocês encontrarão uma pérola sobre Lucio Fulci, lapidada pelas mãos abençoadas de Adolfo.

O cara comandou muitos ciclos em Belém. Hoje comanda os espaços da Bahia. Estive em diversas exibições que só depois de muito tempo fui saber que era ele o organizador. Adolfo, obrigado pelo amor e pela dedicação que jogastes nos espaços alternativos da cidade. Não é todo dia que aparece um ‘Henri Langlois’ na nossa frente.

SERVIÇO: Sessão Maldita apresenta : "A História Secreta do Cinema de Horror Italiano". Todos os sábados de setembro. "Pavor na Cidade dos Zumbis", do italiano Lucio Fulci, será o filme de abertura. Dia 06. Entrada Franca. Às 21h 30.

criado por marklewis    19:27 — Arquivado em: Sem categoria

26/8/08

Os Dez Mais Violentos do Cinema?

           

A famosa revista VIP elegeu, no começo deste mês, os dez filmes mais violentos da história do cinema. No rol da violência está "Laranja Mecânica” em primeiro lugar, a sublime fábula do grande Stanley Kubrick sobre Alex e sua gangue de baderneiros. Em segundo entra “Scarface”, a versão sanguinolenta de Brian De Palma para a obra-prima dirigida por Howard Hawks, de 1932.

A estréia de Quentin Tarantino na direção, “Cães de Aluguel”, entra em terceiro. A lista continua com “Seven”, “Funny Games”, “A Outra História Americana”, “Irreversível”, “Paixão de Cristo”, “Jogos Mortais” e “O Albergue”. É bom saber que tem gente interessada em fazer listas. Eu não teria paciência e também minha postura não me permitiria o abuso. Digam-me o que “A Outra História Americana” tem de violento?

Semana passada assisti “Burial Ground”, do famigerado diretor italiano Andrea Bianchi. A obra possui uma das seqüências mais violentas que já vi. Um garoto se transforma em zumbi e arranca com os dentes os seios de sua progenitora. “Buio Omega”, obra do safadão Joe D’amato, mostra o protagonista serrando os membros de sua vítima e depois jogando o que sobrou da coitada em uma banheira cheia de ácido. Que fofo!

Adoro “O Albergue”. Eli Roth trouxe a anarquia que o cinema de horror havia esquecido, mas coloque-o perto de qualquer Takashi Miike que veremos quem é o gatinho vestido de rosa. Cabeça rolando em “Seven”? Encontramos isso em qualquer slasher vagabundo. Até “Canibal Ferox”, uma cópia descarada da obra-prima “Canibal Holocausto”, é mais violento que “Cães de Aluguel”. Isso que eu chamo de lista ‘elitizada’. Pergunte ao Tarantino de onde vem a cena da orelha cortada? Coitado do Sergio Corbucci. “Laranja Mecânica” é uma das grandes obras da história do cinema, mas não tem bagagem suficiente para concorrer com uma obra violentíssima, e linda, chamada “Don’t Torture a Duckling” e com o famoso filme de Wes Craven, “Aniversário Macabro”. O primeiro é uma obra-prima, o segundo é tão  cafajeste quanto seu diretor e se iguala aos filmes de Sylvester Stallone, mas é violento.

Não me entendam errado. É claro que não colocaria “Laranja Mecânica” acima de “Canibal Ferox”, no quesito cinema. Longe de mim. Mas digo em alto e bom som: as correntadas de “Don’t Torture a Duckling”, na seqüência do espancamento da aldeã, valem mais do que os chutes de Alex na famosa cena do filme de Kubrick. Violência sentida e não camuflada.

E o que dizer da podridão chamada "Paixão de Cristo" e do enganador "Funny Games"? É melhor ficar calado. Reitero, não gosto de listas. Mas adoro colocar pimenta na comida dos outros. Vocês não querem colocar na minha? Só tomem cuidado com meus olhos.

 

 

criado por marklewis    19:27 — Arquivado em: Sem categoria

23/8/08

Descansem em Paz

 

Ronaldo Passarinho, Marco Moreira e o dono deste blog, se encontraram no comecinho deste ano, para um papo descontraído. É claro que o pilar do encontro cairia em uma paixão comum: o cinema. Tudo muito alegre. Mas algumas palavras me pegaram de surpresa e vieram do Moreira: “o contrato do Moviecom com o Cinearte termina em agosto e provavelmente eles não renovarão, queria que alguém arrendasse o local para fazer um projeto alternativo”. Pude entender como é difícil manter um espaço de exibição. Muitos distribuidores fazem jogo duro. O que resta para o exibidor é dançar conforme a música. Ou a grana aparece ou niente! Moreira naquele dia só nos avisou que o cemitério de cinemas de rua, em Belém, iria cavar mais três covas em agosto. No último dia 21 as portas se fecharam. As palavras de meu confrade tomaram corpo. Espero que alguma alma caridosa atenda ao desejo que não é só da família Moreira, mas também, do público paraense.

 

 

Às vezes reclamo, mas sinto muita, mas muita falta mesmo desses espaços de rua. Sinto falta das filas que tomavam conta das calçadas. Sinto falta dos dias inteiros “perdidos” no Circuito Cinearte e no Severiano Ribeiro, que resultaram em três reprovações escolares de minha vida. Os corredores, o cheiro da pipoca (até o cheiro da pipoca dos Multiplex é diferente), as matinês dos domingos nos Cinemas 1, 2 e 3. Charles Chaplin, Ingmar Bergman e Alfred Hitchcock. Posso dizer que os espaços foram como pais para mim. Deram-me alento. Deram-me vida. Deram-me sonhos. Aproveito para agradecer ao Moreira e sua família. Por terem dado não só a mim, mas ao público, um pouco de vida e de esperança. Não cheguei a conhecer Alexandrino Moreira, mas foi seu amor pelo cinema e sua adorável loucura que deram a Belém esta oportunidade, a de desbravar um mundo infinito e maravilhoso. Cinemas 1, 2 e 3, descansem em paz.

criado por marklewis    12:23 — Arquivado em: Sem categoria

19/8/08

O Escafandro e a Borboleta

 

Escafandro= Roupa de borracha e ferro usada por mergulhadores para trabalhos no fundo da água.
Borboleta= insetos da ordem Lepidoptera.

Jean-Dominique é redator da revista Elle. Não tem sucesso com as mulheres, adora comer bem, ama seus filhos e gosta de barbear o pai. Passeando com seu filho mais velho na estrada, o protagonista tem um ataque, ou melhor, um AVC, mais precisamente a síndrome de Locked-in. Essa paralisia rara faz com que Jean-Do – como os mais íntimos lhe chamam- mexa somente uma pálpebra.

 

Vemos o protagonista, ao longo de todo o filme, “preso” ao seu escafandro. A abertura é até promissora, quase quinze minutos de agonia. O quadro fica recheado de borrões, pessoas distorcidas, movimentos que o homem-piscadela enxerga. O filme emprega esse tom em primeira pessoa. Um mundo colorido e cheio de sonhos nos é dado, através do artifício da câmera subjetiva.

 

O personagem "sofredor" rouba nosso olhar. Um esquema é feito para que a comunicação de Jean-Do, com o mundo, seja possível: ele pisca no exato momento em que a letra para formar sua palavra é dita pela médica. Daqui por diante louvarei o texto em primeira pessoa. Chega de brincadeiras, meu tempo é precioso. E fico irritado fácil. Jean-Do me enganou a cada minuto que seu discurso é cravado na tela. Pela primeira vez não posso culpar o diretor pela ineficácia de um filme. Culpo o personagem. Jean-Do é “maior” que o filme e Julian Schnabel, diretor de “O Escafandro e a Borboleta”.

 

Jean Do sonegou-me duas horas de entretenimento. Entretenimento que parou em uma árvore podre, sem folhas, aonde a tal borboleta do título, nem chegou a levantar vôo. Não li o livro “Le Scaphandre et le Papillon”. Tenho para mim que deve ser incrível ler a experiência, muito diferente de ter ‘visto’. Não sou alérgico a trucagens metafóricas, e é até indelicadeza e redundância de minha parte, dizer que o filme está cheio delas. Posso concluir que escafandro foi meu corpo inquieto, minha vista, pesada e fria, e a borboleta foi minha leveza e imensa alegria, ao levantar da poltrona, após ter sido massacrado por duas horas de pura chatice.

criado por marklewis    19:33 — Arquivado em: Sem categoria

16/8/08

Por Uma Programação Melhor

 

Já faz um tempinho que não falo sobre a programação da cidade. É chato ficar falando sempre a mesma coisa. Parece que agora, as coisas estão tomando outro caminho. Pelo menos é o que eu quero acreditar. O Cine Olympia, por enquanto, deu um chega pra lá nos filmes franceses e está exibindo uma obra do cineasta português Pedro Costa, “Casa de Lava”. O filme fica somente até este domingo, 17, às 18h30. Conheço pouca coisa do cineasta português. Sua filmografia não é extensa, mas mesmo assim é penoso achar algo dele. Para quem não conhece o cineasta, corra. Não é todo dia que uma iguaria que não a francesa é oferecida pelo espaço.

 

 

No Cine-Estação, a programação de agosto fica por conta do filme “Estômago”, de Marcos Jorge, com exibições nos dias 23, 24 e 31, em horários alternados e “Um Beijo Roubado”, de Kar Wai Wong, ou Wong Kar Wai, nos dias 24, 30 e 31. Independente da ordem do nome do famoso e superestimado diretor de “Amor à Flor da Pele”, minha vontade de ver o filme reside em apenas um fator, quero dizer, dois. Um amigo me disse que Norah Jones e Cat Power fazem participações no filme. Todos podem lançar as palavrinhas chatinhas e péssimas a elas. Mas eu as adoro. A primeira é filha do famoso instrumentista Ravi Shankar- o mentor de George Harrison na cítara- e dona de uma voz que faz o Mark babar. A segunda é da "cena" que alguns chamam de Indie Rock (ô rótulo insuportável). As duas devem ser péssimas atrizes, mas só de vê-las na telona..ai ai. Só sei que Marcos Jorge, diretor de “Estômago”, é curitibano, de resto não sei nada.

 

 

 O “Cinema na Casa” está com o ciclo Mario Bava, toda terça, às 18h30. Com a curadoria de meu confrade Mateus Moura. O Cine EGPA decidiu homenagear Andrei Tarkovski, sábia decisão. Desde o dia 02 de agosto, a APJCC em parceria com o Cine Líbero Luxardo, do Centur, vem realizando uma mostra em comemoração ao centenário da imigração japonesa. A mostra intitulada “Viver e Morrer no Oriente”, dentro do projeto ‘Sessão Maldita’, já deu ao público paraense Kaneto Shindo e Norifumi Suzuki. Hoje à noite será a vez do sublime e visceral “Graveyard of Honor” (1975), do prolífico Kinji Fukasaku, que mesmo velhinho ainda dirigiu uma obra forte, “Batle Royale”, de 2001. Na próxima semana será exibido o maldito e cult “Tetsuo: The Iron Man” e o encerramento será com o grande cineasta Kiyoshi Kurosawa, com “Pulse- Kairo”, dia 30. Aproveito para agradecer, em nome da APJCC, pela força e apoio que a turma que comanda o Cine- Líbero vem nos dando. Augusto Pacheco, João Cirilo, e, sobretudo Mariano Klautau Filho. O público paraense ainda terá outra surpresinha, aguardem.

 

 

Não posso deixar de comentar sobre o maior espanto que tomei quando fiquei sabendo. Acho que todos já sabem. Mas como ando meio desligado e afastado só fui saber a pouco tempo. O Moviecom do Castanheira abriu um espaço intitulado Moviecom Arte. Na única sala digital, sala quatro. Destinado a exibir filmes ditos de ‘arte’. Serão filmes renegados pelo próprio espaço (?), e com um preço para ninguém reclamar, apenas quatro pratas com meia entrada para estudantes. “Escafandro e a Borboleta” foi o pontapé inicial. Parece que o novo Michael Moore e o novo Sidney Lumet pousarão também por lá. Em uma conversa com Augusto Pacheco, fiquei sabendo da mobilização para trazer a nova obra de David Lynch, “Império dos Sonhos”, que só pode ser exibido no formato digital. A possibilidade é pequena, remota, mas mesmo assim fiquei alegre em saber que o esforço está sendo feito. Acho que só Belém e Quixeramobim não viram a obra de Lynch na telona. Vamos fazer figa. A cidade está melhorando com essa pluralidade, mas ainda precisa melhorar muito. As ruas estão mais cheirosas. A inhaca está aos poucos sumindo. Em tempos de eleição, prefiro ficar com o slogan "Por Uma Programação Melhor".

 

 

 

 

 

 

criado por marklewis    13:06 — Arquivado em: Sem categoria

1/8/08

O Cineasta Woody Allen

 

Woody Allen continua a perambular por terras estranhas a fim de realizar suas obras. E isso está fazendo um bem e tanto ao baixinho hipocondríaco e tagarela. Com exceção do insosso “Scoop”, essa mudança de ares tem revelado uma faceta do diretor do bonitinho “Zelig”, que a maioria do público desconhecia: o Allen cineasta. Não é difícil perceber com quais pilares a maioria das obras do nova-iorquino se sustentaram ao longo dos anos; da auto-adoração e da gentileza dramatúrgica, em sua expressão mais aguda. Seus filmes sempre lançaram esse olhar reducionista ao cinema. Não à toa, Allen, com sua obsessão Bergmaniana, bradou em seus filmes, e apenas isso, a fábula constante do ser humano e de suas idiossincrasias. Ingmar Bergman nasceu no teatro. Mas não era tolo o bastante para destruir o retrato puro da sétima-arte. Woody Allen, diferente do astuto Bergman, abusava dos monólogos intermináveis, de marcações pobres e estéreis, de um dinamismo indolente viabilizado por personagens cimentados em um divã torto. Objetos máximos da preguiça cinematográfica. Sempre foi bom rir com Woody Allen, mas nunca foi bom rir do cinema.

 

 

Em sua nova obra, “O Sonho de Cassandra”, Allen vai buscar paralelo em tons Shakespearianos e nos laços das famosas tragédias gregas. Mas isso não seria o bastante para realocar o diretor ao castelo grandioso e infinito, liderado lá de cima, por Alfred Hitchcock e sua adorável turma. “O Sonho de Cassandra” adota uma narrativa elegante, com planos-seqüência desde já memoráveis, planos osciladores, quietos e viscerais - tal qual a oscilação dos personagens. A construção do eixo dramático, entre o tio e os irmãos, é mostrada em uma das seqüências mais fortes e soberbas deste ano: depois de uma conversa tranqüila - onde cada qual ‘demonstra’ sua personalidade - os personagens forçados por um temporal, caminham em direção a uma árvore, e escondidos entre ela, somos apresentados de fato ao personagem do tio e a um elemento inserido no diálogo entre os três, que será o fio-condutor da narrativa.

 

 

Outro momento grandioso é digno de aplausos, a cena que fecha com a decisão dos irmãos: a do crime. Após uma tentativa frustada, eles decidem planejar para o dia seguinte a execução do plano. Perseguem sua futura vitima até o momento oportuno: em uma ruela, apertada e tomada por cercas vivas, uma abordagem destrambelhada é lançada. A câmera recua em um sutil travelling, se afastando da pavorosa decisão que os irmãos haviam tomado. A sequência citada é tão delicada, de um rigor e primor imagético refinadíssimo, que faria Bernado Bertolucci se enterrar de tanta vergonha. Nada mais justo, e coerente, jogar confetes em cima de um homem que, passou a vida toda procurando apenas a gargalhada teatral. Se o diretor, em “O Sonho de Cassandra", agiu como um falso profundo, como muitos apregoaram, pelo menos o franzino teve a decência - tal qual no sublime “Match Point”- de ser um, utilizando a magistral arte que ele ousou escolher: o cinema. Seja bem-vindo cineasta Woody Allen.

 

 

 

 

 

criado por marklewis    17:43 — Arquivado em: Sem categoria
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