Cinema na Mangueirosa

Dedicado aos que amam cinema. A música também pintará por aqui, sobretudo Rock n Roll.

16/10/08

Encarnando o cinema

José Mojica Marins respeita muito seu personagem Zé do Caixão. Tamanho apreço pode ser sentido no pouco caso que o cineasta faz, ao ser chamado até hoje de Zé. Josefel Zatanas, após as obras “À Meia Noite Levarei Tua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, também passou a existir no mundo real: comandou programas de tv, onde as atrações ficavam por conta do sofrimento de ‘voluntários’. O cinema de Mojica sempre foi recusado pelo público brasileiro, sobretudo pelo público ‘espertinho’, ‘descolado’. Público apreciador do cinema de mensagens, de conteúdo. Que deixa de ir ao enterro da mãe para ver o “atual” cinema italiano, o “atual” cinema francês. Zatanas é um homem sem fé, não acredita em Deus. Constrói sua fé baseada no que acredita ser a maior benção terrestre: a tortura. “Encarnação do Demônio” não teria possibilidades tão gigantescas sem a presença de seu criador original.

 

Quase meio século após sua prisão, o personagem é apresentado  em uma das cenas mais fortes da obra: não vemos sua cartola, não vemos sua capa preta. Apenas parte de seu rosto, suas imensas unhas roçando entre as grades. O ‘animal’ lança a praga que muitos não queriam ouvir: ele está voltando! Voltando para cuspir na cara do brasileiro que existe cinema de gente grande em terra de “Cidade de Deus”, voltando para dar um chute no traseiro enrugado de certos registros cinematográficos nacionais que desrespeitam o sentido do fazer cinema. O cinema nacional – sustentador de imagens sociológicas, folclóricas, nacionalistas, regionalistas e existenciais - ganha força com a violenta e desafiadora cartela de José Mojica Marins. Esta cartela  é muito apreciada quando vinda de fora. Preterir o cinema de Mojica em favor de obras recentes do cinema de horror, como o impuro e vazio “Jogos Mortais”, é legitimar a estupidez.

 

 

“Encarnação do Demônio” luta por um cinema esquecido, o cinema ‘real’, feito na raça, sem floreios. Não à toa o diretor foi buscar os famosos “freaks”, pessoas de rua, artistas circenses- tal qual Tod Browning no maldito e belo “Freaks”, 1932- para planificar e dar vida a sua crueldade. E a confirmação de que existe um fosso grande entre os cineastas e os enganadores vem através de uma singela e imprescindível cena: a imagem de uma criança sendo baleada é suprimida. Fade-out! Zé acha as crianças os únicos seres puros, sem maldade no coração. Mojica sempre esteve presente na turma dos cineastas, ou melhor, na dos artistas. “O cinema é uma arte, mas nem todo cineasta é um artista”, diria Truffaut. “Encarnação do Demônio” não procura ser quadro negro, muito menos pilar revolucionário e palanque. Sua força é lapidada por um tom genuinamente cinematográfico, entrelaçado por um exercício primoroso do gênero. Infelizmente o Brasil ainda é muito pequeno para sorver tal magnitude.

criado por marklewis    17:50 — Arquivado em: Sem categoria

7 Comentários »

  1. Comentário por Danilo — 16 16UTC outubro 16UTC 2008 @ 19:19

    Pô, teu texto tá lindo, igual ao filme. Pena que o diretor ainda seja motivo de graça para alguns, percebi isso na sessão do estação…

  2. Comentário por Aerton Martins — 17 17UTC outubro 17UTC 2008 @ 8:26

    Danilo,

    Obrigado. Como sempre o público tem que fazer seu papel. Mas te digo uma coisa, com toda a franqueza, pensei que a sessão seria mais bagunçada. Abraços. E apareça.

  3. Comentário por Rachel — 17 17UTC outubro 17UTC 2008 @ 19:45

    Quem diria Mark!!! O filme está em cartaz no circuito comercial!! Papai Noel chegou mais cedo esse ano!!! Beijos!!!

  4. Comentário por Fernando Carvalho — 18 18UTC outubro 18UTC 2008 @ 17:50

    O que mais me emocionou ao assistir a obra - fora o que tu já citastes - foi a harmonia e a simplicidade com que ele conseguiu trazer o horror para dentro do universo brasileiro, dando um tapa na cara daqueles que torcem o nariz para o gênero no Brasil onde predomina um cinema que se divide entre “pseudo-assistencialismo” e comédias “vamos-discutir-a-relação” paulistanas. A sensação que o filme exala ao terminar é a de missão cumprida com louvor, de Mojica para com seu personagem e com o cinema.

  5. Comentário por Aerton Martins — 19 19UTC outubro 19UTC 2008 @ 10:59

    Rachel,

    Milagre! O filme do Mojica entrou no circuito comercial!! Realmente papai noel chegou mais cedo, espero que ele traga mais presentes maravilhosos. Abraços.

    Grande Fernando,

    Amém, meu caro. Amém.

    Abraços.

  6. Comentário por Renato Zombie — 22 22UTC outubro 22UTC 2008 @ 16:53

    Já que o estação está exibindo alguns filmes que vão na linha do terror….Por que não passar o Death Prof, do Tarantino, já que até o filme do Rodriguez passou lá também, heim Aerton? Você saberia dizer? Parabéns pelo teu blog.

  7. Comentário por Aerton Martins — 23 23UTC outubro 23UTC 2008 @ 18:02

    Renato,

    Muito obrigado. E olha, respondo tua pergunta com o teu apelo: que venha o filme do Tarantino! “Death Proof” está um pouco atrasado mas merece ser visto na telona. Vamos esperar, Renato. Infelizmente só posso te dizer isso.

    Abraços.

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