Cinema na Mangueirosa

Dedicado aos que amam cinema. A música também pintará por aqui, sobretudo Rock n Roll.

23/10/08

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias

O plano se fixa em um retrato que está sobre a mesa, sem nenhuma personagem no quadro fílmico. Em questão de segundos o plano se abre – com o uso da câmera na mão - e vemos duas mulheres tirando a toalha da mesa. Até aí nenhuma exposição deixa o espectador confortável. É após vinte minutos de projeção que a trama se fecha: estamos diante de uma mulher que tenta de tudo para ajudar sua companheira de quarto a fazer um aborto.

Uma estatística recente mostrou que a Romênia, atrás apenas da França, é o país europeu onde mais se pratica o aborto. A obra do diretor Cristian Mungiu vai focar a jornada pessoal que a personagem Otilia, vivida pela atriz Anamaria Marinca, faz para ajudar sua colega, Gabita. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” não se contenta em dramatizar apenas essa jornada, mas preocupa-se também em desnudar o pano de "fundo".

A obra põe no paredão o momento vivido pelo país – a obra se passa em 1987- onde o comunismo impedia que cigarros da marca ‘Kent’ caísse nas mãos dos Romenos. A câmera fixa grita alto: seja na única seqüência honesta, como a do jantar onde Otilia fica no centro do quadro, e os convidados lançam suas asneiras enquanto ela só pensa na situação da companheira, ou seja nas inúmeras cenas espúrias, corruptas, e uma delas mostra a carteira de cigarro proibida sendo utilizada como moeda de troca.

No saldo final temos até uma obra interessante , que abusa dos planos-seqüências, mas que se desmancha tal qual algodão-doce na boca quando saímos do cinema. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” desbancou “Zodiac”, “Os Donos da Noite” e “Death Proof” e levou a Palma de Ouro em Cannes. Na sétima-arte também existe traquinagem.

criado por marklewis    17:46 — Arquivado em: Sem categoria

16/10/08

Encarnando o cinema

José Mojica Marins respeita muito seu personagem Zé do Caixão. Tamanho apreço pode ser sentido no pouco caso que o cineasta faz, ao ser chamado até hoje de Zé. Josefel Zatanas, após as obras “À Meia Noite Levarei Tua Alma” e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, também passou a existir no mundo real: comandou programas de tv, onde as atrações ficavam por conta do sofrimento de ‘voluntários’. O cinema de Mojica sempre foi recusado pelo público brasileiro, sobretudo pelo público ‘espertinho’, ‘descolado’. Público apreciador do cinema de mensagens, de conteúdo. Que deixa de ir ao enterro da mãe para ver o “atual” cinema italiano, o “atual” cinema francês. Zatanas é um homem sem fé, não acredita em Deus. Constrói sua fé baseada no que acredita ser a maior benção terrestre: a tortura. “Encarnação do Demônio” não teria possibilidades tão gigantescas sem a presença de seu criador original.

 

Quase meio século após sua prisão, o personagem é apresentado  em uma das cenas mais fortes da obra: não vemos sua cartola, não vemos sua capa preta. Apenas parte de seu rosto, suas imensas unhas roçando entre as grades. O ‘animal’ lança a praga que muitos não queriam ouvir: ele está voltando! Voltando para cuspir na cara do brasileiro que existe cinema de gente grande em terra de “Cidade de Deus”, voltando para dar um chute no traseiro enrugado de certos registros cinematográficos nacionais que desrespeitam o sentido do fazer cinema. O cinema nacional – sustentador de imagens sociológicas, folclóricas, nacionalistas, regionalistas e existenciais - ganha força com a violenta e desafiadora cartela de José Mojica Marins. Esta cartela  é muito apreciada quando vinda de fora. Preterir o cinema de Mojica em favor de obras recentes do cinema de horror, como o impuro e vazio “Jogos Mortais”, é legitimar a estupidez.

 

 

“Encarnação do Demônio” luta por um cinema esquecido, o cinema ‘real’, feito na raça, sem floreios. Não à toa o diretor foi buscar os famosos “freaks”, pessoas de rua, artistas circenses- tal qual Tod Browning no maldito e belo “Freaks”, 1932- para planificar e dar vida a sua crueldade. E a confirmação de que existe um fosso grande entre os cineastas e os enganadores vem através de uma singela e imprescindível cena: a imagem de uma criança sendo baleada é suprimida. Fade-out! Zé acha as crianças os únicos seres puros, sem maldade no coração. Mojica sempre esteve presente na turma dos cineastas, ou melhor, na dos artistas. “O cinema é uma arte, mas nem todo cineasta é um artista”, diria Truffaut. “Encarnação do Demônio” não procura ser quadro negro, muito menos pilar revolucionário e palanque. Sua força é lapidada por um tom genuinamente cinematográfico, entrelaçado por um exercício primoroso do gênero. Infelizmente o Brasil ainda é muito pequeno para sorver tal magnitude.

criado por marklewis    17:50 — Arquivado em: Sem categoria

10/10/08

Encarnação do Demônio em Belém

 

Não temos “Vicky Cristina Barcelona” e nem “Burn After Reading”, mas teremos “As Filhas de Chiquita” e “Nossa Vida não cabe num Opala”. A 5° Mostra Curta Pará Cine Brasil, que acontecerá no Cine Estação, dará ao público paraense cinco longas-metragens nacionais inéditos, alguns curtas nacionais e uma sessão ‘exclusiva’ com curtas paraenses. No bolo ainda teremos alguns vídeos realizados com celular. Quem não tem cão caça com gato caolho e aleijado. Não poderia deixar de comentar sobre a grande atração da mostra. “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins (e não Zé!), que fará a abertura dos longas, no dia 14/10, às 21hs. O encerramento da famosa trilogia que começou com o sublime “À Meia Noite Levarei Tua Alma” poderá ser visto pelos paraenses, em apenas uma sessão. Acho bom e ruim. Conheço gente que gosta do diretor e em função do horário não poderá assistir a tão esperada obra. Ao mesmo tempo penso no que aconteceu no Circuito Cultural Banco do Brasil, há um ano, no mesmo espaço. O circuito trouxe uma mostra em vídeo e película da maioria dos filmes de horror do mestre brasileiro.

 

 

Algumas das pepitas trazidas pelo circuito que estavam na mostra de 2007: “Esta Noite Encarnarei Teu Cadáver”, “Ritual dos Sádicos”, o documentário “Horror Palace Hotel” e “O Estranho Mundo de Zé Do Caixão. Infelizmente o público não apareceu. Concluí que só eu e mais alguns desocupados não tinham visto as obras do grande  Zé do Caixão ( ops, José Mojica Marins) na telona. Fico feliz que os cinéfilos paraenses gostem tanto do trabalho do diretor, afinal era um empurra-empurra para ver o “excêntrico” de capa preta em seu “show”, no cemitério da Soledade, que nem tiveram tempo de dar uma passada nos quatro dias da mostra. Abençoado e bendito público da mangueirosa! Não temos “Alexandra”, ”Bam gua Nat” e nem “Aquele Querido Mês de Agosto”. Não teremos uma retrospectiva de filmes raros do começo da carreira de Ingmar Bergman, em cópias novas em 35mm, mas teremos “Encarnação do Demônio”. Uma graça concedida a Belém. Amém.

 

 

 

criado por marklewis    21:32 — Arquivado em: Sem categoria

3/10/08

O grito de Lachenay

 

Eis uma pequena pérola que entrego a vocês, leitores. O texto não é imenso, mas foi com esse pequeno grito que li em uma revista de cinema , em uma época distante- revistas avermelhadas que se pareciam mais com prédios, de tão finas que eram- que fez este blogueiro olhar o cinema de outra maneira. Um dos grandes pensadores da sétima-arte:

"André Bazin gosta muito de Cidadão Kane e Soberba, um pouco de A Dama de Xangai e Otelo, pouquíssimo de Jornada do Pavor e Macbeth, e nada de O Estranho. Cocteau gosta muito de Macbeth mas não de O Estranho. Sadoul gosta demais de Kane e de Soberba mas não aprecia nem um pouco Jornada do Pavor e Macbeth. Quem tem razão? Apesar do respeito que tenho por Cocteau, Bazin e Sadoul, prefiro filiar-me à opinião de Astruc, Rivette, Truffaut e tutti quanti que adoram sem distinção todos os filmes de Welles porque eles são filmes de Welles e não parecem com nenhum outro, por uma certa atuação de Welles que é um diálogo shakespeariano com o céu (o olhar passando por sobre a cabeça de seus comparsas), por uma qualidade da imagem que deve menos à plástica do que a um notável senso da dramaturgia das cenas, por uma invenção perpétua verbal e técnica, por tudo isso que cria um estilo, esse “estilo Welles” que encontramos em todos seus filmes, sejam eles luxuosos ou esquartejados, filmados de forma rápida ou lenta. Eu ainda não vi Relatório Confidencial, mas eu sei que é um bom filme porque ele é de Orson Welles, e mesmo que Orson Welles quisesse fazer um filme de Delannoy ele não conseguiria. O resto é tagarelice de fofoqueira."

Robert Lachenay

P.s: Robert Lachenay é um dos vários pseudônimos que o grande François Truffaut ultilizava à época de suas escritas abençoadas na ‘Cahiers du Cinema’. Pegou emprestado o nome de seu amigo de infância que o acompanhava nas sessões de cinema. Truffaut também deu o sobrenome Lachenay para alguns personagens de seus filmes.

criado por marklewis    18:12 — Arquivado em: Sem categoria
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