24/9/08

“Os idiotas são como portas, há sempre quem as deixa abertas”.
Da obra “Nouvelle Vague”, de Jean-Luc Godard.
“Achar graça e chorar são reações naturais na sala escura, já gargalhei e chorei em muitos filmes”. Disse exatamente essas palavras ao público que esteve presente na sessão do filme “Terror na Ópera”. Não custa repetir aqui. Um conhecido cuspiu em meu ouvido: “não apareço mais na sessão maldita porque sempre tem um louco que estraga tudo”. Se fosse só ele a reclamar. Mas não. Outros dizem que a liberdade de expressão está aí para ser respeitada. Imaginem a cena: um cara se levanta e começa a bater papo com seu namorado no meio da sessão, outro joga game no celular e outro grita tal qual o capitão Nascimento. Cinema não é espaço de Maria-fofoqueira, não é salão de jogos e muito menos quartel.
Essa galinhagem não é liberdade de expressão, mas sim cristalização e incitação ao idiotismo. Utilizando a analogia de Godard: “na maldita há sempre uma porta aberta”. Na abertura do ciclo japonês, com a obra “Onibaba”, pude sentir uma “porta” fazendo um barulho insuportável. Ela gritava a todo instante: “beija ela, tarado, ta na secura”. Falo pela enésima vez: nem no teatro interativo existe tamanha interação! Uma das coisas mais nojentas que já vi na vida, e olha que todo dia me vejo nu. Na sessão que teve “Pavor na Cidade dos Zumbis” como prato principal, tive que lançar o termo “palhaço”, em voz alta, a fim de fechar uma. Tive que agir por segundos como uma porta. Coitada da minha amiga Jéssica, que estava do meu lado, tomou um susto com minha rispidez repentina. Mil perdões, companheira.
Se a porta se abre só um pouquinho, normal. Mas na maldita quando uma porta se abre ela insiste em não se fechar. O idiota quer fazer da sessão inteira sua pocilga e pensa que o público inteiro quer se sujar. Não! O público não é porco. Ele tem que ser respeitado. Por fim, vamos gargalhar e chorar, ou fazer cara feia, para “Tortura”, 1972, (Don’t Torture a Duckling) de Lucio Fulci, filme que encerra o ciclo “A História Secreta do Cinema de Horror Italiano” neste sábado, 27/09. Só tenho receio de apenas uma coisa: de me deparar com alguma porta escancarada. Nada é perfeito.
17/9/08

Admito que nunca tive paciência para o que muitos pregavam como “movimento musical” em nossa mangueirosa. Era muito cão sem latido. De uns anos pra cá a coisa mudou de figura. A cidade ganhou mais força, mais viço. A pluralidade paraense no terreno musical, agora, é palpável. Falo isso pois o momento é oportuno. Nesta sexta-feira, dia 19/09, começará a terceira edição do “Festival Se Rasgum no Rock”. Três dias de muita música. Plebe Rude, Johny Rockstar, Canastra, Curumim, Suzana Flag, Wado e mais um punhado de atrações. É claro que chamar grupos de outras regiões para o festival é salutar. Afinal, temos que conhecer o que anda acontecendo no Brasil. Mas não seria exagero dizer que as bandas locais, sozinhas, dariam conta do recado. Conheço pouca coisa das atrações de fora. Com as exceções de Wado, Plebe Rude e o Canastra, todo mundo é estranho para mim. Graças a Deus! É sempre bom ser pego de surpresa. Parece que haverá um dia exclusivo para as bandas paraenses. Sábia decisão. Ver essa turma no mesmo dia será a confirmação de que Belém anda ficando cada vez mais paid’égua.

Temos um caldeirão entupido e diversificado. Uns dizem que Belém teve seu “momento” na virada dos anos 80 para o 90. Outros dizem que a “sopa” nem chegou a esquentar. Hoje temos o que comemorar? Sim. Suzana Flag é diferente de Stereoscope, que por sua vez é diferente do Turbo, Madame Saatan, Cravo Carbono, Johny Rockstar e por aí vai. Difícil não se emocionar com o som encorpado e melódico do “Suzana Flag”. A banda recentemente fez um showzaço no Café com Arte para lançar algumas músicas do sucessor do sublime “Fanzine”. Alguns dizem que a banda, nascida em Castanhal, carrega uma sonoridade parecida com a do grupo “Pixies”. Pode até ser, mas na humilde opinião deste blogueiro, a casquinha também é tirada do Franck Black em sua ótima carreira solo. E isso não é nada ruim.

Turbo e Johny Rockstar são grupos liderados por dois remanescentes da finada “Eletrola”. O primeiro tem a potência sonora de um MC5, o segundo é uma espoleta pop rock que deixaria Ray Davies com um sorrisão no rosto. E o incrível La Pupuña com a mistura de The Ventures e guitarrada paraense? Ó minha maravilhosa Belém. Meus ouvidos agradecem. Eu tinha planejado para este post falar sobre o Anima Mundi, famoso festival de animação que começa hoje no Cine Estação. Àqueles que quiserem ficar com o traseiro na poltrona, servidos por um monte de chatices, desejo boa sorte. Façam suas apostas para este fim de semana porque eu já fiz a minha.
9/9/08

Domingo. O ano era 1996, novembro. Amanheci trabalhando com meu pai. Vi o sol nascer com uma garrafa de Coca-Cola nas mãos. Caminhei até a praça matriz com ele e me despedi. Minhas pernas estavam destruídas. Meu corpo gritava por um banho e por uma cama. Acho que nunca gastei tanta força, física, como naquele dia.
Era de se esperar que eu – apelidado por meus amigos de “o homem sofá”- chegasse em casa e despejasse minha estafa nos cômodos sofridos. Não consigo dormir quando estou muito cansado. Pode parecer sinal de loucura mas é a pura verdade. No Circuitocinearte tinha acabado de entrar em cartaz o filme “Tempo de Matar”, de Joel Schumacher. No dia anterior, minha cabecinha planejou assistir o filme, que ainda vinha como brinde a maravilhosa Sandra Bullock.
Consegui fechar os olhos, mas não por muito tempo. Saltei da cama com a gritaria do jornaleiro na rua. Percebi que ainda era cedo, muito cedo. Nas manhãs dominicais era de praxe eu receber a visita de um grande amigo, Cláudio, e neste dia não foi diferente. Meu caro chegou em casa com uma proposta indecente: “está passando "Fuga de Los Angeles" no Palácio, vamos”? Atribuo minha mudança de planos a um único motivo: a amizade. Esta palavrinha que ajuda-nos a suportar este mundão, sórdido e porco, fez com que minha pequena dose de bom senso sumisse. Não recordo-me como um outro amigo nosso, Marcelo, se meteu, também, nesta arriscada aventura.
Os cinemas de rua davam uma coisa que os cinemas de shopping não dão: a música mecânica antes da sessão. E eu adorava isso. Entramos no Cine Palácio servidos pela famosa música do filme ?!?!?!?!?. O cinema estava vazio. Não me contive. Dei minhas piruetas até o começo do corredor, tentando imitar o ator Gregory Hines em “O Sol da Meia Noite”. E o “Fuga de Los Angeles”? Dormi o filme inteiro. Um miquinho apenas não faz mal a ninguém.
Post dedicado aos queridos ( e calhordas) Cláudio e Marcelo.
2/9/08

APRESENTAÇÃO
Foi na Itália de Federico Fellini e Luchino Visconti que surgiu os nomes que imortalizaram o gênero horror. De um lado, Dario Argento, que de aprendiz esforçado dos filmes de Hitchcock, se transformaria em um grande maestro imagético com as obras-primas "Terror na Ópera" e "Profondo Rosso". De outro, Mario Bava, com sua ironia mordaz deu ao cinema seu mundo fantástico e cheio de cores e, também, pincelou o que viria a ser chamado de "Giallo"- filmes de suspense italianos. E por último, Lucio Fulci, diretor versátil, que começou realizando comédias pueris, depois westerns, até chegar ao gênero que o fez um dos mais brilhantes realizadores do cinema, o "horror". É em cima dessa trinca que o cinema pôde sonhar, se libertar e exagerar. Em comemoração ao aniversário de um ano do grupo Fellinianos- grupo que retomou a sessão maldita no segundo semestre de 2007- a APJCC, em parceria com o Cine Líbero Luxardo, apresentará ao público paraense o pungente e secreto cinema de horror italiano.
Aerton Martins (Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema- APJCC)
Nada mais justo homenagear essa turma da Itália. Aproveito para pagar outras dívidas que tenho. Agradeço pela força e dedicação de minha querida amiga Fábia. Pelo apoio de meus confrades da APJCC. Aos que tomam conta do Cine Líbero Luxardo, Augusto Pacheco, Cauby Erick, João Cirilo e, mesmo distante, Mariano Klautau Filho. Agradeço, também, ao meu caro Ronaldo Passarinho, que sempre divulgou as exibições alternativas de Belém.
Agora abro espaço para uma rasgação de seda. Deixo neste espaço o Link que vai para um texto do blog "Bressonianas"- http://bressonianas.zip.net/arch2006-09-10_2006-09-16.html - que pertence ao cara que fez o Mark enxergar o quão importante é o trabalho de cineclubista, Adolfo Gomes. Nele vocês encontrarão uma pérola sobre Lucio Fulci, lapidada pelas mãos abençoadas de Adolfo.
O cara comandou muitos ciclos em Belém. Hoje comanda os espaços da Bahia. Estive em diversas exibições que só depois de muito tempo fui saber que era ele o organizador. Adolfo, obrigado pelo amor e pela dedicação que jogastes nos espaços alternativos da cidade. Não é todo dia que aparece um ‘Henri Langlois’ na nossa frente.
SERVIÇO: Sessão Maldita apresenta : "A História Secreta do Cinema de Horror Italiano". Todos os sábados de setembro. "Pavor na Cidade dos Zumbis", do italiano Lucio Fulci, será o filme de abertura. Dia 06. Entrada Franca. Às 21h 30.