1/8/08
O Cineasta Woody Allen

Woody Allen continua a perambular por terras estranhas a fim de realizar suas obras. E isso está fazendo um bem e tanto ao baixinho hipocondríaco e tagarela. Com exceção do insosso “Scoop”, essa mudança de ares tem revelado uma faceta do diretor do bonitinho “Zelig”, que a maioria do público desconhecia: o Allen cineasta. Não é difícil perceber com quais pilares a maioria das obras do nova-iorquino se sustentaram ao longo dos anos; da auto-adoração e da gentileza dramatúrgica, em sua expressão mais aguda. Seus filmes sempre lançaram esse olhar reducionista ao cinema. Não à toa, Allen, com sua obsessão Bergmaniana, bradou em seus filmes, e apenas isso, a fábula constante do ser humano e de suas idiossincrasias. Ingmar Bergman nasceu no teatro. Mas não era tolo o bastante para destruir o retrato puro da sétima-arte. Woody Allen, diferente do astuto Bergman, abusava dos monólogos intermináveis, de marcações pobres e estéreis, de um dinamismo indolente viabilizado por personagens cimentados em um divã torto. Objetos máximos da preguiça cinematográfica. Sempre foi bom rir com Woody Allen, mas nunca foi bom rir do cinema.

Em sua nova obra, “O Sonho de Cassandra”, Allen vai buscar paralelo em tons Shakespearianos e nos laços das famosas tragédias gregas. Mas isso não seria o bastante para realocar o diretor ao castelo grandioso e infinito, liderado lá de cima, por Alfred Hitchcock e sua adorável turma. “O Sonho de Cassandra” adota uma narrativa elegante, com planos-seqüência desde já memoráveis, planos osciladores, quietos e viscerais - tal qual a oscilação dos personagens. A construção do eixo dramático, entre o tio e os irmãos, é mostrada em uma das seqüências mais fortes e soberbas deste ano: depois de uma conversa tranqüila - onde cada qual ‘demonstra’ sua personalidade - os personagens forçados por um temporal, caminham em direção a uma árvore, e escondidos entre ela, somos apresentados de fato ao personagem do tio e a um elemento inserido no diálogo entre os três, que será o fio-condutor da narrativa.

Outro momento grandioso é digno de aplausos, a cena que fecha com a decisão dos irmãos: a do crime. Após uma tentativa frustada, eles decidem planejar para o dia seguinte a execução do plano. Perseguem sua futura vitima até o momento oportuno: em uma ruela, apertada e tomada por cercas vivas, uma abordagem destrambelhada é lançada. A câmera recua em um sutil travelling, se afastando da pavorosa decisão que os irmãos haviam tomado. A sequência citada é tão delicada, de um rigor e primor imagético refinadíssimo, que faria Bernado Bertolucci se enterrar de tanta vergonha. Nada mais justo, e coerente, jogar confetes em cima de um homem que, passou a vida toda procurando apenas a gargalhada teatral. Se o diretor, em “O Sonho de Cassandra", agiu como um falso profundo, como muitos apregoaram, pelo menos o franzino teve a decência - tal qual no sublime “Match Point”- de ser um, utilizando a magistral arte que ele ousou escolher: o cinema. Seja bem-vindo cineasta Woody Allen.
criado por marklewis
17:43 — Arquivado em: 

Comentário por Blimbou — 6 06UTC agosto 06UTC 2008 @ 14:27
Olá Marck
Allen sempre fez questão de enfatizar sua obsessão por Bergman, chegando a citá-lo em “Manhatan”. Pena que eu ainda não tive a sorte de ver essa nova era de filmes do Allen, marcada em “Matchpoint”.
Comentário por Aerton — 7 07UTC agosto 07UTC 2008 @ 10:46
Caro Blimbous,
Não perca tempo. Corra para ver o novo Allen. Great!
Abraços.
Comentário por gabriel — 10 10UTC agosto 10UTC 2008 @ 1:31
gostei muito do seu blog. Gosto muito de cinema,assim como você.Com o intuito de procurar pessoas com interesse em cinema criei uma comunidade no orkut e gostaria que voce participasse.Ela é destinada a todas as pessoas que gostam de filmes.a comunidade chama-se Cinema/dvd/filmes e o link é http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=64695769.
Ainda esta pequena mais gostaria que crecesce.Se gostar divulgue-a por favor.
abraços
Gabriel
Comentário por Bruno Valente — 10 10UTC agosto 10UTC 2008 @ 20:46
Fala Mark!
Sou muito fã do Woody Allen e, embora também esteja feliz com a guinada que ele vem dando desde “Match Point”, não posso deixar de apontar algumas injustiças que, na minha opinião, acabaste cometendo. Durante sua carreira, ele já passou por diversas outras mudanças, indo desde as comédias mais escrachadas (”Um assaltante bem trapalhão”, “Bananas”…) até os dramas mais densos (”Interiores”, “Alice”…); no caminho, além das suas já conhecidas comédias (”Poderosa Afrodite”, “Broadway Dany Rose”…), enveredou também pelo drama familiar (”Maridos e esposas”, Hannah e suas irmãs”), suspense (”Misterioso assassinato em Manhathan”, “Crimes e pecados”), musical (”Todos dizem eu te amo”), até chegar naquela que, pra mim, é sua maior obra-prima até o momento: o fortemente auto-biográfico “Desconstruindo Harry”. Embora não seja um entendido no assunto, creio, modestamente, que este percurso rendeu, sim, vários momentos de grande Cinema. É só lembrarmos do momento em que o galã do cinema sai da tela para se juntar à heroÃna em “A Rosa púrpura do Cairo”; ou, ainda, a bela seqüência de abertura do “felliniano” “Memórias”; e, também, a inesquecÃvel cena de “Manhattan” em que ele conversa com a heroÃna, à noite, em um banco de praça.
Um abraço.
Comentário por Aerton — 11 11UTC agosto 11UTC 2008 @ 17:32
Fala Brunão,
Realmente, como tu mesmo dissestes, o Allen já nos deu momentos de cinema. Mas sempre sempre achei o diretor um pouco duro no eixo cinematográfico. Ainda acho graça e admiro muitas - com reservas - obras antigas do baixinho, mas nunca o achei um cineasta puro, que libera suas obras através do amor com a câmera - objeto primordial para a sétima-arte. Allen , na minha humilde opinião, era um cineasta que oscilava demais em suas demarcações. Ora era dramaturgo, ora era escritor, ora afagava o cinema. Mas é isso…Agora o cara, para o Mark, está pisando em terreno cinematográfico, de fato. E aqui para nós, meu caro, “Manhatan” é um de meus mimos..rs..
Abração, Bruno.
Comentário por Aerton — 11 11UTC agosto 11UTC 2008 @ 17:40
Valeu Gabriel,
Darei uma conferida com carinho..
Abraços.