8/7/08
Prefiro Ver Cinema

Ando um tanto atarefado. Ultimamente tenho deixado meu estimado “filho” apenas com as ‘aventuras’ cineclubistas da APJCC. Mas esse ‘abandono’ é necessário e salutar. ‘Alimento’ dois macacos com uma banana só. Essa correria quebra até um galho na atualização do blog e ainda faço a divulgação das ações que a associação anda promovendo. Dei uma espiada nos arquivos e confirmei minha falta de zelo, com os ciclos dos quais sou curador, e com os que ando dando uma pequena mãozinha. Mas agora o Mark vai andar na linha. Uma linha torta, porém honesta. Sábado passado foi a vez de “Pierrot Le Fou”, na sessão maldita. Fiquei assustado com a quantidade de gente que apareceu.

Acho que isso faz de mim um pecador. Um pecador por não ter acreditado na força que o grande Jean-Luc Godard ainda tinha a oferecer. Fiquei realmente emocionado. Mais uma parcela paga da eterna dívida que herdei, ao escolher a sétima-arte como minha sublime morada. Sempre digo que nunca conseguirei pagar esta dívida, nem daqui a cem anos. Nem se no paraíso houver cinefilia (ou no inferno), eu conseguirei me sentir em uma zona de conforto. Todo cinéfilo que se preze deveria esbravejar pelos quatro quantos: “sou um devedor”. Com o cinema não se brinca. Ou a pessoa se ajoelha perante o cinema ou ela grita ao mundo que faz parte apenas da turma da filmefilia.

‘Devo’ a tanto cineasta que fico até com vergonha de mim mesmo. No momento estou mais revendo filmes do que vendo coisas novas. Culpa desta grande dívida que tenho o prazer de pagar. Não teria coragem de agir como um desalmado e colocar na “bandeja de prioridades” o novo Sean Penn, ou o novo Ang Lee, ou o novo seja-lá-quem-for diretorzinho bundão festejado em algum festival mais bundão ainda. Prefiro ficar com meus velhos ‘amigos’ e afagar outros talentosos que estão na rua da amargura.

Kenji Mizoguchi ainda é pouco conhecido no Brasil. Mais de cinqüenta filmes de um dos maiores cineastas do mundo foram destruídos no período da segunda guerra mundial. Acaba de sair em versão nacional, uma de suas pérolas, “Contos da Lua Vaga”. Um plano qualquer desse filme – escolha qualquer um- vale mais do que a filmografia inteira do insosso e nocivo Akira Kurosawa.

Prefiro Chafurdar e tentar desenterrar algo novo- mesmo que seja impossível- do grande Orson Welles, pois todo cinéfilo é sonhador. Prefiro rever cem vezes toda a filmografia do mestre Alfred Hitchcock. Prefiro chorar pela milésima vez ao ver “Stalker”. Prefiro babar nas calças do rejeitado, humilhado e apedrejado M. Night Shayamalan a ter que iluminar o terreno fetichista e impuro de Gus Van Sant.

Prefiro correr em direção aos devaneios do imagético Lucio Fulci a ter que ficar saboreando a falta de viço nos filmes de Pedro Almodovar. Prefiro puxar o tapete, não à toa, do cafajeste Tim Burton e construir o trono do verdadeiro Deus do gótico, Mario Bava. Prefiro ver os milhares de travelling-óticos dos filmes de Chang Cheh a ter que ver um saco ‘voando’.

Prefiro não dar a mínima para os pecadores que maltratam a arte dos sublimes Luchino Visconti, Sergio Corbucci e Nicholas Ray. Prefiro me ajoelhar ao classicismo poético de Valério Zurlini a ter que ficar cego, ao ver as estripulias do meninão Marco Ferreri. Uma questão de dívida e amor. Conheço gente que prefere ver filme. Eu prefiro ver cinema.
criado por marklewis
19:59 — Arquivado em: 

Comentário por Sara — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 0:06
Markkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…ri muito deste seu texto e tbm do seu comentário no blog do ronaldo: “Caro Rafael, o Mark não lançou nenhuma mensagem”.
Olha só, quero saber se foi pra mim aquela parte de “iluminar o terreno”. Vou avisando que o Mark vai levar cascudão.
Adorei o texto.
Beijocas =**************************
Comentário por Breno — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 0:44
Eu acho que essa parte “iluminar o terreno” foi para a Sara, sim. Aliás, é a Sara que anda merecendo uns cascudos haha
Comentário por Aerton Martins — 12 12UTC julho 12UTC 2008 @ 10:10
Obrigado Sara,
Também me divirto fazendo os textos…Sinceramente não pensava em você quando escrevi ‘iluminar o terreno’. Mas como o Breno disse: ‘ tás merecendo uns cascudos’ sim..rs..
Beijocas aos dois….