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Ao contrário do que a maioria grita, em tempos de febre Batmaniana nos cinemas, nunca fui adorador do personagem. O homem-morcego não chamava minha atenção nos quadrinhos, nem em desenhos e muito menos nas capengas e soporíferas adaptações para a tela grande. Quando menor o que preenchia minhas noites de insônia ou era uma edição da MAD, ou uma das aventuras do malandro Zé Carioca. Um sujeito chamado Christopher Nolan, diretorzinho que sempre procurava algo - mas só achava a bagunça generalizada em seus filmes - deu um sopro de vida não aos personagens, mas sim, à obra.

Fez de “Batman- Cavaleiro das Trevas” uma tábua de salvação. A Obra perniciosa, nociva e pesada encontra aquele cinema querido, que muitos cinéfilos sentem falta: o cinemão. Obras que possuem fôlego e vigor narrativo, e que não esquecem que mesmo em um terreno distante do autoral, a possibilidade de criação alcança patamares até não desejados por seus criadores. Esse é o caso que, felizmente, toma conta de Nolan e de “Batman- Cavaleiro das Trevas”.

A abertura do filme demonstra que a mão do diretor sofria de uma benção necessária: a câmera segue em travelling vertiginoso em direção a um arranha-céu, a vidraça é estilhaçada. Ladrões mascarados tomam de assalto um banco. Homens matando uns aos outros. A seqüência por mais simples que possa parecer, contém toda a modulação do mal, por qual a obra vai espernear o tempo inteiro. A loucura se instaura. O tom policial, humanista, realista, e doentio, trata de dar alimento ao embate, não entre Batman e Coringa, não entre o comissário Gordon e a corrupção de Gothan, mas sim entre o ser humano e sua derrota.

O campo é aberto para o ser humano e suas dores. Coringa altera a origem de suas cicatrizes a todo o momento. Batman renega salvar seu grande amor por um bem 'maior'. Gordon participa de uma farsa que provoca reações negativas em sua família. Dois barcos e dois detonadores. Está armada a confusão: um leva os civis, pessoas de dignidade e de boa conduta, o outro, carrega a escória da humanidade, assassinos. Nolan ‘aborta’ o desfecho crucial do incrível set-piece às avessas. Mas aí já era tarde demais. O ser humano se encarrega de mostrar, cada qual, a sua essência. Nolan participa do jogo alterando e manipulando sabiamente o espaço entre os personagens. Esse espaço estrutural, vindo dos filmes de gênero, encurta a distância entre os filmes de entretenimento e “filmes artísticos”. “Batman-Cavaleiro das Trevas” cospe em nossa cara a assertiva do sublime Fritz Lang: “somos todos filhos de Caim”. Nunca foi tão saboroso sentir o doce sopro, herdado do assassino de Abel.

criado por Aerton Martins
21:09:23
Tenho medo que meu blog se transforme em um 'depósito'. Falo isso porque vejo muitos "depósitos" pela internet. Em todos os sentidos. Blog que desaparece, blog feito por homens invisíveis. Esse é o mais comum e não me apetece, nem um pouco. Vejo blog usando o termo 'interação' de forma errônea. Refiro-me a postura dorminhoca que o blog da ACCPA adota. Eu não estou aqui para cobrar nada de ninguém, que fique claro. Até porque quem deveria se cobrar são os próprios críticos de cinema de nossa querida cidade. Se eu crio um espaço para "uma maior interação"- palavras da ACCPA- com os cinemaníacos, é claro que deve haver um salto grande quando se 'passa' do jornal impresso- recurso 'impossível' de pedir interação- para as páginas virtuais, onde se tem uma troca mais 'verdadeira', mais 'real', mais 'palpável'. Reclamei, como sempre reclamo. Não posso perder meu querido costume. Aproveitei a deixa de meu amigo Ronaldo Passarinho, no blog da ACCPA, e falei algo sobre essa falta de tato que eles lançam no espaço. Acho que puxar o mouse um pouquinho, mexer o teclado para direita ou esquerda, teclar algumas palavrinhas, não será motivo para quebrar o braço de ninguém. Queria que alguém me informasse quantas pessoas fazem parte da ACCPA, meus braços passariam horas tentando fazer uma equação dessa "interação". "Recebi", após dezenove dias de minha reclamação, a seguinte resposta de um dos integrantes da ACCPA: "amigos, estamos melhorando o blog, fiquem atentos". Como diz a letra do 'hino' torturador- que meu tio ama ouvir- de nosso querido estado: "...isso é Belém, isso é Pará... isso é Brasil". Viva a interação!

criado por Aerton Martins
21:03:18
Definitivamente não me considero uma pessoa chata. Muito menos arrogante e pedante. Mas existem coisas na vida que fazem você estufar o peito e querer sair matando tudo que ‘carrega’ dois braços, duas pernas e algum resíduo de massa encefálica. Na última Sexta-Feira estava me preparando, após um dia exausto de muita correria, para assistir o tão comentando “WALL- E”, nova animação realizada pela Pixar, que algum tempo atrás foi incorporada pela ‘papa tudo’ Disney. Fui perceber, de última hora, que o horário de exibição não era compatível com o meu. A “recompensa” não demorou em chegar. Descobri que havia entrado na cidade um filme que utiliza um famoso e conhecido efeito: o em 3-D.

Meu único desejo quando criança era o de entrar em um cinema que estivesse passando um filme com os tais efeitos, os que sentimos os objetos sendo 'lançados' para fora da tela. Em um famoso parque de São Paulo, tive a oportunidade mágica de entrar em um ‘Cinema 360 graus’- hoje é difícil ver algum seja lá onde for. Tive que enfrentar uma escadaria para entrar nele. Acho que foi a maior tela que vi na vida, uma dessas telas que possuem o dobro do famoso formato esticado dos anos 50: o ‘Cinemascope’. Fiquei maravilhado com o que era exibido. Um mero filme curto, no máximo de 7 minutos: pessoas, trens, animais. Apenas um pretexto para mostrar aquela monstruosidade de sala. Depois fiquei sabendo que o que eu tinha acabado de ver não era o efeito em 3-D. Foi o fim do mundo para mim. Moleque bobão! Depois disso, no começo dos anos 90, em Belém, tentei ver o “A Hora do Pesadelo: Pesadelo Final”. A obra só tem os últimos minutos em 3-D, mas mesmo assim queria estar lá, para ver a magia. Fui barrado pelo porteiro do saudoso ‘Cinema Nazaré’. Que malvado! “Pequenos Espiões 3-D” no ‘Narazé 2’, o filme é uma bomba mas deu pra perceber um pouco da magia que eu havia perdido quando moleque.

O filme que eu acabei não dizendo no começo do texto é a “Viagem ao Centro da Terra”. Aprimoramento nos efeitos e agora em um filme com pessoas de carne e osso. Meus olhos começaram a brilhar no mesmo instante. Corri para o espaço ‘Moviecom-Castanheira’, estava tão eufórico que nem tomei minha precaução costumeira. Só ao entrar na anti-sala, com o bilhete na mão, é que fui perguntar ao bilheteiro: “é com sistema 3-D, então cadê os óculos”? Fui atingido por sua resposta ingênua e educada: “é claro que é, mas eu acho que cada pessoa tem que trazer de casa o seu, ou mandar comprar”. A sala do ‘Moviecom-Castanheira’ não deu condições para o público ver a obra com seu sistema original. Peço mais respeito com o público paraense e que da próxima vez coloquem, no mínimo, um aviso com as indicações. Entrei na sala de exibição como uma criança perdida -sem culpar o cavalheiro que só recebe ( ou não) ordens- e imaginando a cena hilária : o Mark sentado no chão de casa, confeccionando seus óculos para filmes em 3-D. Ainda não foi dessa vez.

criado por Aerton Martins
12:08:18
Ando um tanto atarefado. Ultimamente tenho deixado meu estimado “filho” apenas com as 'aventuras' cineclubistas da APJCC. Mas esse 'abandono' é necessário e salutar. 'Alimento' dois macacos com uma banana só. Essa correria quebra até um galho na atualização do blog e ainda faço a divulgação das ações que a associação anda promovendo. Dei uma espiada nos arquivos e confirmei minha falta de zelo, com os ciclos dos quais sou curador, e com os que ando dando uma pequena mãozinha. Mas agora o Mark vai andar na linha. Uma linha torta, porém honesta. Sábado passado foi a vez de “Pierrot Le Fou”, na sessão maldita. Fiquei assustado com a quantidade de gente que apareceu.

Acho que isso faz de mim um pecador. Um pecador por não ter acreditado na força que o grande Jean-Luc Godard ainda tinha a oferecer. Fiquei realmente emocionado. Mais uma parcela paga da eterna dívida que herdei, ao escolher a sétima-arte como minha sublime morada. Sempre digo que nunca conseguirei pagar esta dívida, nem daqui a cem anos. Nem se no paraíso houver cinefilia (ou no inferno), eu conseguirei me sentir em uma zona de conforto. Todo cinéfilo que se preze deveria esbravejar pelos quatro quantos: “sou um devedor”. Com o cinema não se brinca. Ou a pessoa se ajoelha perante o cinema ou ela grita ao mundo que faz parte apenas da turma da filmefilia.

'Devo' a tanto cineasta que fico até com vergonha de mim mesmo. No momento estou mais revendo filmes do que vendo coisas novas. Culpa desta grande dívida que tenho o prazer de pagar. Não teria coragem de agir como um desalmado e colocar na “bandeja de prioridades” o novo Sean Penn, ou o novo Ang Lee, ou o novo seja-lá-quem-for diretorzinho bundão festejado em algum festival mais bundão ainda. Prefiro ficar com meus velhos 'amigos' e afagar outros talentosos que estão na rua da amargura.

Kenji Mizoguchi ainda é pouco conhecido no Brasil. Mais de cinqüenta filmes de um dos maiores cineastas do mundo foram destruídos no período da segunda guerra mundial. Acaba de sair em versão nacional, uma de suas pérolas, “Contos da Lua Vaga”. Um plano qualquer desse filme – escolha qualquer um- vale mais do que a filmografia inteira do insosso e nocivo Akira Kurosawa.

Prefiro Chafurdar e tentar desenterrar algo novo- mesmo que seja impossível- do grande Orson Welles, pois todo cinéfilo é sonhador. Prefiro rever cem vezes toda a filmografia do mestre Alfred Hitchcock. Prefiro chorar pela milésima vez ao ver “Stalker”. Prefiro babar nas calças do rejeitado, humilhado e apedrejado M. Night Shayamalan a ter que iluminar o terreno fetichista e impuro de Gus Van Sant.

Prefiro correr em direção aos devaneios do imagético Lucio Fulci a ter que ficar saboreando a falta de viço nos filmes de Pedro Almodovar. Prefiro puxar o tapete, não à toa, do cafajeste Tim Burton e construir o trono do verdadeiro Deus do gótico, Mario Bava. Prefiro ver os milhares de travelling-óticos dos filmes de Chang Cheh a ter que ver um saco ‘voando’.

Prefiro não dar a mínima para os pecadores que maltratam a arte dos sublimes Luchino Visconti, Sergio Corbucci e Nicholas Ray. Prefiro me ajoelhar ao classicismo poético de Valério Zurlini a ter que ficar cego, ao ver as estripulias do meninão Marco Ferreri. Uma questão de dívida e amor. Conheço gente que prefere ver filme. Eu prefiro ver cinema.

criado por Aerton Martins
19:59:57
Jean-luc Godard é um dos grandes pilares do cinema francês e de toda a história desta grande arte. Quando David Wark Griffith empunhou sua câmera, na primeira obra adulta do cinema, “Nascimento de Uma Nação”, em 1915, nascia ali uma arte genuína, que defendia sua linguagem, suas unidades e sua autonomia. Os irmãos Lumière deram ao mundo a máquina foto-reprodutora da realidade, mas foi o corajoso cineasta americano que desbravou o até então ‘filho’ do teatro e o elevou a condição de arte.

Após 45 anos do amadurecimento do cinema, na França, uma turma sorvia todos os gens da filmografia americana, e também percorriam diversos caminhos por quais diretores autorais deixavam suas marcas, de diferentes nacionalidades - Dinamarca, Itália, Japão, União Soviética - mas que tinham uma coisa em comum: ‘o respeito e fidelidade para com o cinema’. Nascia as páginas amarelas da famosa e sublime “Cahiers Du Cinema”, que depois deu como fruto uma grande turma denominada por jornalistas de “Nouvelle Vague”. E nesse terreno múltiplo, estava Jean-luc Godard, junto com seus confrades de ‘trabalho’: Jacques Rivette, François Truffaut, Claude Chabrol e outros sonhadores.

“Acossado”, o primeiro longa de Godard, nasceu em 1959, de um roteiro que Truffaut havia feito sobre um fato real. A obra mistura elementos de detetive, comédia e suspense, só que de um modo sincopado demais para os padrões da época. A barreira havia sido quebrada. A impressão Godardiana sobre os fatos não só do mundo, mas também, do cinema, estaria lançada. “Pierrot Le Fou”, 1965, é uma obra visceral, anárquica, experimental e carrega todos os emblemas que o diretor franco-suíço pregou em suas obras anteriores. Em “Pierrot Le Fou” temos o tom de liberdade anarquista, que fica difícil enxergar outro paralelo dentro da turma da “Nouvelle Vague”.O autor de “Viver a Vida” nos presenteia com um sublime jogo de signos.

Seu cinema levanta a questão do cinema, seus filmes falam sobre filmes. “Pierrot Le Fou” respira arte e propõe que o cinema pode andar de mãos dadas com as demais artes - pintura, literatura, quadrinhos, poesia visual - sem que estas clamem por alguma soberania. “Pierrot Le Fou” é uma obra de diálogos imagéticos e que lança o olhar de interrupção que norteia todo fragmento da narrativa ‘destruída’ - esta sim, de tom mais abrupto, pois Godard não tinha roteiro, tudo foi feito em função de um fluxo de linhas, “mal” riscadas, que o diretor tinha em seu caderno - e caminha perfeitamente com o embate de eixos: cinema de vanguarda e cinema clássico, cultura pop e cultura erudita, Samuel Fuller e Velasquez, vida e cinema, um não anda sem o outro e tudo é permitido no campo de batalhas de “Pierrot Le Fou”.

Jean-Luc Godard disse certa vez: “Houve um tempo em que talvez o cinema podia melhorar a sociedade, esse tempo se perdeu”. Com meia dúzia de travellings sublimes, planos expressivos, diálogos, luzes filtradas cheias de cor, Godard deixa escapar, que em “Pierrot Le Fou”, esse tempo é sentido.
AERTON MARTINS- APJCC.
SERVIÇO: CINE LÍBERO LUXARDO (CENTUR)
SESSÃO MALDITA: PIERROT LE FOU
DIA 05 DE JULHO, SÁBADO, ÀS 21h30
ENTRADA FRANCA
“PIERROT LE FOU” DE JEAN-LUC GODARD
França. 1965. Cor. 110min.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Dirk Sanders, Raymond Devos, Samuel Fuller.

criado por Aerton Martins
18:22:27