Cinema na Mangueirosa

Dedicado aos que amam cinema. A música também pintará por aqui, sobretudo Rock n Roll.

17/6/08

“Em Busca da Obra”

 

Andrei Tarkovski vivia dizendo que seu maior sonho como cineasta era fazer um filme inteiramente em plano-sequência, só assim ele estaria em paz com a sétima-arte. Não foi à toa que um de seus discípulos, Aleksander Sokurov, realizou “Arca Russa” utilizando o artifício de filmar sem que haja cortes. Isso me leva a acreditar  na grande coragem que tomava conta da alma do grande M. Night Shyamalan, quando estava dirigindo “Fim dos Tempos”. Ele não estava pensando em seu público, nem nele, muito menos nos executivos. Estava pensando tão somente na dívida que tinha para com o cinema. “Fim dos Tempos” é uma obra que peita! Mais do que “A Vila” e “A Dama na Água” peitaram. “A Dama na Água” experimentou em cima de um conto de fadas, deixando um sabor cinemático em cada fiapo da narrativa.

 

 

“A Vila” ‘preteriu’ tanto o público em favor do cinema que nem seu subtexto ‘ralo’ estragou a diversão imagética, se tornando uma obra pungente em todos os sentidos. Em “Fim dos Tempos” vemos a destruição de qualquer convenção carola por qual uma narrativa classicista passaria . Um Personagem crucial é destruído sem o menor pudor: o senhor que dá a resposta para todo o acontecimento da trama. Um personagem ilustrativo, que permite o equilíbrio dramático com a cena da “conversa” entre a planta de plástico e o personagem vivido por Mark Wahlberg.

 

 

Atuações medíocres? Com toda certeza. Mas cinema não é atuação. Mensagens tortas para dar e vender? Talvez sim. Mas Shyamalan não acredita tanto em soluções para a sociedade, quer apenas brincar com elas. Assim como “brinca” e coloca suas obras onde bem entende. “Fim dos Tempos” pode até parecer frágil, pueril, sem sentido, mas em cada fotograma sua força é lançada, mesmo que pelos meios mais superficiais- Hitchcock foi o pai do “superficial” e um dos maiores gênios do cinema. Shyamalan, em sua recente obra e em toda sua filmografia, serve-se do cinema (o honesto e verdadeiro) o tempo todo. “Fim dos Tempos” nunca, com toda certeza, irá correr atrás de seu público: seu grito é muito “fraco”, “simplista”, "amador". A obra vai encontrar seus espectadores apenas se eles saírem em busca dela. David Wark Griffith, não se preocupe, tem gente cuidando muito bem do cinema aqui embaixo.

 

criado por marklewis    20:56 — Arquivado em: Sem categoria

10 Comentários »

  1. Comentário por Fernando Carvalho — 18 18UTC junho 18UTC 2008 @ 0:00

    Quando assisti “A Dama na Água” no cinema saí com uma noção sobre o filme que não abandono até hoje, para mim aquele era (e ainda é) o filme-testamento de Shyamalan onde ele faz uso da mis-en cene para contar uma história sobre o processo de criação de um artista, sua iluminação (a idéia que vem de outro mundo) até os diversos caminhos inclusive passando pelo erro (a sugestão do crítico-intelectualóide que busca originalidade da história e apuro literário em uma linguagem que nada tem a ver com ambas). Ainda não vi “Fim dos tempos” , mas já tenho certeza sobre uma coisa: Shyamalan está no cinema para deixar sua marca, não importa a quem doa. Ele busca um cinema que ri da necessidade de se criar convenções para agradar parcelas específicas de público, mas ainda assim acessível por não se valer de nada mais além do que a própria lingüagem do cinema.
    Não sei quento tempo esse cara vai dura no cinema, mas com certeza sua passagem causará (espero) muitas mudanças significativas, senão para a indústria e crítica cega, para os que apreciaram sua obra.

  2. Comentário por ADELSON JUNIOR — 18 18UTC junho 18UTC 2008 @ 15:31

    infelizmente eu ainda não assisti fim dos tempos, mas, com certeza, esse texto falando sobre o filme e um apanhado sobre um pouco das obras de shyamalan, vão servir de incentivo pra ver o filme.

    eu assisti a todos os filmes de shyamalan, mas o que fica no topo, de maneira incondicional, é corpo fechado - filme que prende a atenção desde o início até o seu final arrebatador.

    com certeza, mesmo com criticas fracas, fim dos tempos vem imprimir mais uma vez em nossas mentes e corações quão incrivel contador de histórias é m. night shyamalan. vida eterna a shyamalan!

  3. Comentário por Aerton Martins — 18 18UTC junho 18UTC 2008 @ 18:11

    Caros Fernando e Adelson,

    Assino com vocês. Shy é um gigante do cinema. Pena que pouca gente enxerga isso.

    Abraços.

  4. Comentário por Breno — 19 19UTC junho 19UTC 2008 @ 3:05

    O Shyamalan é um dos poucos diretores que me faz ver um filme na estréia. Quando ele lança um filme, parece que todo o resto feito dentro da indústria soa bobo. Um diretor de perfumarias, como Wong Kar-wai, vem lá da China filmar na américa e percebe que fazer cinema de verdade não o que ele faz no quintal da casa dele. Shyamalan é um gigante e faz cinema de gente grande.

    O que eu também achei interessante foi que ao mesmo tempo em que ele revisita “Os Pásssaros”, desconstrói. Nos seus filmes anteriores, como “Sexto sentido”, “Corpo Fechado” e “Sinais”, havia o extremo cuidado com a apresentação e desenvolvimento dramático das personagens e o aparecimento dos elementos fantásticos na história. No seu novo filme, ele já nos joga dentro da trama, sem nem pedir licença.

  5. Comentário por Breno — 19 19UTC junho 19UTC 2008 @ 3:06

    Para mim já é um dos melhores filmes do ano. Um sonoro: “vai te fuder, Hollywood”. A questão que ficou para mim, foi até que ponto ele fez concessões ou tudo aquilo ali foi realmente o que ele queria. Tipo a seqüência que antecede o final, quando a Zooey fica grávida até o fade out, a beleza da cena é puramente Shyamalan; mas o final em si, além de soar pessimista, também parece que ele finge seguir as regras do gênero. A própria mudança de mise en scène, também aponta para isso.

  6. Comentário por Breno — 19 19UTC junho 19UTC 2008 @ 3:33

    Será que vai ser preciso novamente um francês vilipendiar um diretor do sistema de estúdios na américa? Esses americanos não aprendem, mesmo. Como diz o Clint: “Os americanos preferem a grama dos outros”.

  7. Comentário por Aerton Martins — 19 19UTC junho 19UTC 2008 @ 18:21

    Mano, o filme é uma porrada e uma construção desde o título do filme: “The Happening”.Tradução literal: ” o acontecimento”. Pena que o nome nacional estragou com a motivação central e fez com que o público sonhasse com certas convenções de filmes catastróficos. Meu primo queria progressão dramática da narrativa. Primo, vai a merda! Já te disse, brincadeira de criança é com Peter Jackson e com outros bobocas como o menino Wong e seus maneirismos.

  8. Comentário por Fábia Martins — 19 19UTC junho 19UTC 2008 @ 22:03

    O que dizer de Shyamalan? Sou apaixonada por ele. Antes de ver Fim dos Tempos, temi, depois da fracassada aceitação de A Dama na Água pelo público e crítica, que ele poderia ter que retirar o seu nome antes do anúncio do nome do filme do cartaz oficial. Os críticos e o público lhe foram cruéis. Mas não me abalei e nem me abalo. Na Dama, Shya, “brincou”, como bem sublinhou o Fernando com a mise-em-scéne, embora eu tenha sentido falta dessa poesia em o Fim, a proposta do filme, ainda sim, me agradou muito, e as cenas do suicídio coletivo foram muito bem feitas, principalmente, a cena em que o guarda se mata, e as demais pessoas vão pegando a sua arma e se matando também, e isso só focalizando os pés das pessoas e sem cortes… Assim como em a Dama, ele brinca com os “elementos fílmicos” do gênero, e mostrou ser versátil, explorando-o, talvez para deixar claro para o que veio, ou seja, não ser rotulado como um diretor de “finais surpresa ou de reviravoltas”, e deixar claro que não só domina a arte quanto pode usá-la para fazer dela um diálogo aberto com o público, com os críticos, com a mídia, com a indústria, etc. E sem piedade, Shya, realmente já nos joga dentro dos “acontecimentos”, e logo nos perguntamos “o que está acontecendo?”, e essa pergunta tem um duplo sentido, tanto pela situação da história desenvolvida pelo filme, pois não sabemos a motivação dos suicídios coletivos, e as cenas assustadoras são incomuns em seu trabalho; quanto para aquele que está acompanhando a obra do diretor, já que não se via uma proposta desta nos seus filmes anteriores. Shyamalan tem uma obra intrigante, e quando pensamos em tê-lo, já o perdemos, e iniciamos um novo ciclo de descobertas. Parafraseando o Breno, “Shyamalaneistas, uni-vos! ”

    E o Shya está lindo e charmosos na foto que o Mark nos deixou no texto…rs.

  9. Comentário por Aerton Martins — 21 21UTC junho 21UTC 2008 @ 10:36

    Amém, Fábia.

    Beijão do Mark.

  10. Comentário por Breno — 24 24UTC junho 24UTC 2008 @ 1:40

    Nunca vou esquecer que quando sai do cinema, tava formando uma baita chuva, muito vento, foi assombroso. Shyamalan nunca mais vai me fazer ver o vento como antigamente.

    Outra coisa que eu acho super divertido são as pessoas indignadas que o blockbusters delas do final de semana o vilão é o vento. Ou então quando eles saem da casa que é tudo falso, tem uma frase: “VocÊs merecem isso”. Só comprava a baita ironia e senso de humor do filme. Genial!

    Eu acho engraçado muita gente reclamar que a cena da velha é falha de roteiro e desnecessária. Para mim, a cena é um primor de direção e roteiro, é um set piece como os dos filme de Hitchcock, igual a cena do Milharal, por exemplo, em “IntriGa Internacional”. “Fim dos Tempos” é até agora o melhor filme do ano.

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