3/6/08
Falsa Loura

“Falsa Loura” começa com uma panorâmica que desnuda a cidade de Silmara -vivida pela belíssima atriz Rosanne Mulholland- a ‘falsa loura’ que dá o titulo ao filme. A ‘fusão’- artifício estilístico ‘batido’, mas que nas mãos de Carlos Reichenbach ganha beleza e força dramática em toda a obra- indica a dupla exposição de todo fragmento contido na narrativa, seja na oposição das “Silmaras”, na ‘ostentação’ de seus sonhos e de sua realidade, nas canções “românticas-bregas” e nas músicas refinadas. O diretor caminha por essa esfera de embates, e nos lega uma obra sóbria, coisa rara no cinema nacional. Difícil ficarmos indiferentes na cena onde a protagonista humilha suas amigas, dizendo que nenhuma pessoa além dela crescerá na vida. Aqui a reação é direta e é “completada” na cena posterior, onde o diretor nos esfacela ainda mais, Silmara chegando em sua casa, entregando a encomenda que seu pai havia lhe pedido: ‘a comida para alimentar o passarinho’. Se alguns ainda duvidam que exista algo entre o grande cineasta Howard Hawks com a recente obra do autor de “A Ilha dos Prazeres Proibidos”, é tão somente neste sublime plano que a dúvida se esvai. O cinema invisível aparece. Um furo imenso é aberto em cada espectador.

Silmara ama cuidar de seu pai – um homem desfigurado que quer se esconder de todos, até de seu único amor. Os homens possuem essa ‘virtude’ na obra, são eles que farão Silmara enxergar o quão a vida é espúria, bela, nociva e divertida: seu pai, o cantor de rock, o cantor romântico, um garoto, e seu ex-namorado. A seqüência onde o garoto, filma, com a câmera, o passeio de Silmara com o cantor romântico, vivido por Maurício Matar, é uma das mais tocantes não só da atualidade, mas também da filmografia nacional. Nela há mais do grande Valerio Zurlini- admiração confessa do diretor- do que na homenagem explicita: a seqüência da dança onde o menino observa o casal.

Ninguém duvida que o cinema nacional tenha crescido tanto de uns tempos pra cá. A questão é saber para onde cada cineasta brasileiro pretende seguir. Alguns preferem saborear o caminho do quadro-negro, da panfletagem, das ideologias baratas, e se esquecem que o cinema é anulado quando estes fatores clamam por alguma soberania. Reichenbach foi sábio, segue para o caminho oposto. No plano final do filme, a protagonista caminha em direção à sua realidade. “Falsa Loura” encontra um pilar que o cinema nacional havia perdido: a honestidade para com a sétima-arte e para com o espectador.
criado por marklewis
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Comentário por C.T. — 3 03UTC junho 03UTC 2008 @ 14:30
estava na sessão de sábado e acho que vi você no cinema. Fiquei com vergonha de ir falar contigo. O filme é ótimo mesmo…
Comentário por Breno — 3 03UTC junho 03UTC 2008 @ 15:05
Enquanto muitos celebram Fernando Meirelles e a sua estética publicitária, Carlão é pouco celebrado e muitas vezes ignorado, sendo de longe o nosso maior cineasta atualmente.
Comentário por Fernando Carvalho — 3 03UTC junho 03UTC 2008 @ 23:52
Belo texto Mark, vamos esperar que o público de Belém tenha a sorte de ter uma experiência como essa mais vezes, Reichenbach é um cineasta de um plasticidade e sensibilidade que merecem ser mais apreciadas nos dias de hoje, um cinema onde as imagens, cores e e planos são criados e ditados pelo emocional, nada mais justo para com o cinema moderno brasileiro.
Comentário por Aerton Martins — 4 04UTC junho 04UTC 2008 @ 9:58
Obrigado Fernando,
Nada mais justo do que enaltecer nosso grande artista.
É Breno,
Enquanto os macacos fazem suas brincadeiras, existe muita gente talentosa por aà sendo ignorada, o grande Reichenbach é apenas um de muitos.
Caro ou Cara C.T,
Vergonha? Quê isso! Da próxima vez pode cutucar o Mark.
Abraços.
Comentário por Pebertli — 4 04UTC junho 04UTC 2008 @ 20:29
Aerton, qual é o caminho que tu gostaria que o cineasta ou cinema brasileiro seguisse?
Em off: A tua encomenda tá na mão.
Comentário por Aerton Martins — 5 05UTC junho 05UTC 2008 @ 12:22
Grande Pebertli,
Um amigo certa vez me rebateu dizendo que o cinema não passava somente pela mise-en-scène, passava também pela ética, nem tanto a ética em sua acepção real, não a ética carola, que “visa os bons costumes da humanidade”. Seria uma espécie de ‘ética-cinemaÂ’. Acho que a coisa deve andar por aÃ, meu caro. O Mark não exige nenhum caminho do cinema nacional ou de qualquer outro, apenas respeito por parte do sujeito que escolheu a sétima-arte como sua ‘moradaÂ’.
Abração, Perbetli. Ah, deixa minha encomenda guardadinha.
Comentário por Breno — 7 07UTC junho 07UTC 2008 @ 21:42
O cinema pode até não passar só pela mise-en-scène, mas é apenas ela que mostra o verdadeiro autor de um filme.
Comentário por Rachel — 8 08UTC junho 08UTC 2008 @ 21:01
Ontem eu fui assistir Sangue Negro e até que deu um bom publico. Muito mais gente do que em muitas sessões do Moviecom. E acho que depois de Charles Foster Kane e Vito Corleone, chega Daniel Plainview…
Comentário por Aerton Martins — 9 09UTC junho 09UTC 2008 @ 9:19
Claro Breno,
Ninguém está dizendo o contrário. Abraços.
Rachel,
Também fiquei surpreso com o público nas sessões. Sinal de que Belém está mudando. Abraços.