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Minhas mãos tremiam, o ar se recusava a entrar em meus pulmões, meu coração palpitava e meus olhos se encharcaram. Não acreditava no que meus olhos viam. Como? Como pode existir uma pessoa tão fraca, tão burra, tão benevolente? Para cada plano que mostrava sua dor, eu queria destruir a tela, a fim de não presenciar mais aquela humilhação, aquele inocente amargor. E tudo por uma mulher? Não! Todo sofrimento em nome do amor para com sua família, para com seu irmão.

Uma das grandes e pesadas viagens que fiz pelo cinema. Conhecendo aquela família, senti o sabor da desgraça. Passeei pelo olhar cansado de um de meus grandes ídolos. Pudera eu ter visto Alain Delon, em “Fratello Crudele”, no teatro, trabalhando com Don Luchino Visconti mais uma vez. Reza a lenda, que Delon não se saiu bem nos palcos, e daí? Aceitaria de bom grado uma cusparada em meu rosto, deste supremo ator.

Até hoje choro, na cena onde Rocco coloca as mãos no próprio rosto, depois que Simone violenta sua namorada. Uma dádiva permitida e sentida. O cinema, hoje, ventila em duas direções, para o caminho da sujeira, onde bandidos erguem suas armas enferrujadas, e para o caminho da sobrevivência, onde senhores tentam tirar do lodo algo que ainda resta. Faz tempo, muito tempo, que o cinema não me proporciona este calor, como em “Rocco e Seus Irmãos”. Permito-me a canalhice: “ainda bem”.

criado por Aerton Martins
22:12:18
Depois da paulada que levei, ao assistir o primeiro Hitchcock – mago que me deu o verdadeiro olhar sobre o cinema- fui cair em cima dos braços de outro mago, Orson Welles. Lembro-me da primeira obra que vi deste menino precoce, “A Marca da Maldade”. Foi na casa de um amigo que fui tragado pelas lindas distorções, pelos planos inclinados, pelos intermináveis e grandiosos travellings... Entre a gritaria de meu amigo durante o filme, que não era pouca, fui aos poucos percebendo a construção elegante de um dos grandes construtores do cinema. Mas foi em outra obra de Welles, que tive a confirmação de que o rapaz não era um blefe. Caio em lugar comum, admito, mas não posso refugar o fato de que fiquei “exaurido”, depois de tê-la assistido. À época, menino bobo que eu era, e que matava aulas para entrar em qualquer sala de cinema, só para sentir o cheirinho da ‘sala escura’, não sabia o que era “grande-angular”. E foi com o auxílio de uma “grande-angular”, que a cena aí em cima foi realizada. Toda a grandeza do personagem Charles Fostes Kane, feito pelo próprio Welles, está em pouquíssimos segundos na tela. Kane toma conta de sua grandeza, do espectador, de sua própria alma, do cinema... As “lentes” fizeram meu amor pelo cinema crescer ainda mais. Minha memória às vezes me apunhala, não sei ao certo se foi Jacques Rivette, o diretor francês, que disse “a questão não é amar o cinema, mas sim o que você vai fazer deste amor”. Rivette, ou a quem tem os ‘direitos’ da frase, permita-me a ingratidão... Vendo esta cena, eu fiz pouco...apenas ajoelhei-me.

criado por Aerton Martins
21:22:50
Muita gente, e bota muita nisso, ergue o péssimo e estúpido costume, de associar os ‘filmes B’ aos filmes ‘Trash’, ‘filmes sanguinolentos’, filmes de baixíssima qualidade e por aí vai. “Filmes B” são filmes realizados com baixo orçamento. A expressão foi inventada quando o cinema passou por um sufoco, na década de 30.
Para chamar o público novamente oferecia-se uma ‘sessão dupla’, um filme de baixo orçamento, ‘filme B’, e depois, um filme com orçamento maior, ‘filme A’. É claro que existia uma convenção nesse tipo de ‘jogo’ com o público. Os 'filmes B' tinham que ser leves, a fim de não tirar o pique da platéia para o próximo... Os gêneros que se adaptaram fácil ao ‘paladar’ dos espectadores foram o terror, ficção científica, western e os filmes policiais.
Existem filmes sanguinolentos que não são ‘filmes B’ e estão na disputa pela medalha da ‘mediocridade-mór’ da sétima-arte. Embrulham não só o estômago, mas a alma também. “O Gladiador”, “Coração Valente” e ”Paixão de Cristo” são exemplos da violência ‘escondida’ e imunda.
Obras realizadas com muita grana no bolso, mas que valem menos que uma ‘canção’ do Tiririca. Mel Gibson, este sim, é um senhor ‘Trash’. É um ineficiente diretor, um discípulo da “história” que enoja qualquer arremedo de cineasta. Isto sim, meus caros, é um exemplo de ‘Trash’. Onde a ‘intenção’ foi, e sempre será- no caso de Gibson- mais eficaz que a ‘execução’. Se eu fosse definir o termo ‘Trash’, diria que “é um filme onde a ‘lambança’ é tão grande que não me permite enxergar a alma do cineasta, seu viço"
Eu enxergo Lucio Fulci em suas obras, assim como Dario Argento, Mario Bava, Samuel Fuller, Edgar G. Ulmer, Orson Welles e Tsai Ming-Liang. Agora, fico tonto quando vejo os filmes de David Lean, Milos Forman, Peter Jackson, Ang Lee, Cecil B. DeMille e Michael Curtiz. Cresci vendo os épicos de Cecil B. DeMille, mas só depois de abandonar a calça curta que fui perceber o quão trash eram/são seus filmes. Com a cabecinha mais crescidinha, percebi também, o trash da filmografia do grande pensador de cinema François Truffaut. Mas esse camarada está perdoado, se seus filmes não traduzem seu amor para com o cinema, só ensaiam, pelo menos eles servem para impressionar uma possível conquista amorosa, numa conversar de bar, na esquina, nas festas... Parafraseando o diretor Júlio Bressane; “o horror não está no horror”, e eu complemento; “está no mau cinema e nas pessoas”.

criado por Aerton Martins
11:44:31
É muito irônico. Muito mesmo. No mês de abril, Belém terá um cardápio variado de filmes. Faz tempo que os belenenses não sabem o que é ‘pluralidade’. Mês da mentira, mas na cidade, tudo é verdade! Quando a cópia de algum Michelangelo Antonioni, ou de algum Ingmar Bergman, chega aos espaços ditos alternativos, ou quando uma mostra John Cassavetes está por vir, não é salutar imaginarmos que tal atitude é um 'presente', ou que é sinal de Deus. Não mesmo! Os espaços não fazem mais do que suas obrigações. Agora, quando um Moviecom, que demonstra uma postura de “dragão dos bolsos”- natural, se eu fosse empresário também faria o mesmo-, traz a cidade “Não Estou Lá”, obra com cara de “alternativo”, que narra à história do cantor Bob Dylan, isso sim é um 'presente', uma vibração de algo ‘superior’. Levando em conta que o espaço não tem obrigação com cinéfilo nenhum e nem em propagar cultura nenhuma. Agora, é bom corrermos, porque o horário de exibição que foi imposto mostra, que o ‘presente’, fugirá rapidinho.
Em algumas salas da internet, já podemos ver a divulgação dos filmes que ‘serão’ exibidos este mês, no Cine-Estação. Nos dias 19, 20, 26 e 27, o chinês “Em Busca da Vida”, do muito comentado Jia Zhang-ke e o nacional “O Homem que Virou Suco”, obra famosa de João Batista de Andrade, produzida na virada dos anos 70 para os 80, e não em 60 como alguns divulgam, alternarão horários. Até o presente momento, o site da “Estação das Docas” ainda não disponibilizou a programação de abril, sabemos que a programação do mês, no Cine-Estação, começa mesmo no fim do mês, mas um tantinho de tato com o público não seria pedir demais.
O ‘Cine Líbero Luxardo’, do Centur, exibe a recente e tão falada obra de Gus Van Sant, “Paranoid Park”, na sessão platéia, às 19hs e 30 min. A obra causou grande comoção nos festivais do Rio e São Paulo. Gus Van Sant começou sua carreira ‘analisando’ comportamentos juvenis. Hoje, ele pisa no mesmo terreno, só que o fetiche, é mais deliberado, mais “elaborado”. As demarcações do cineasta são “claras” e nos faz pensar se o cinema do futuro- ou moderno, ou pós-moderno, ou qualquer termo ‘vazio’ que queiramos empregar-, realmente terá que passar, por uma “reordenação”, por um esfacelamento. Van Sant tenta ao máximo se afastar da ‘narrativa’- “a árdua missão de contar uma história”-, o que lhe agrada, apenas, é o “estado” por qual passam suas personagens. A cronologia embaralhada é servida por uma lotação de afetações “chiques”; seqüências em slow-motion, em super-8, falsas continuidades, cenas que se repetem em ecos moribundos...É preciso ver a obra, uma questão crucial para o cinema, temos que avaliar onde os cineastas se ‘encontram’, onde eles se ‘perdem’. Minha ‘dessensibilidade’ não me permitiu sentir nada em “Paraniod Park”. Talvez vocês sintam esta obra, que sinaliza para um tempo novo, tempo da monotonia.

criado por Aerton Martins
12:15:09
Em primeiro lugar, aviso aos cinéfilos, que a reabertura do “Cinema na Casa”, com o “Ciclo John Ford”, foi adiada. Por conta de problemas estruturais o ciclo pulou para o mês de maio. Peço desculpas e conto com a compreensão de todos. A nova data será divulgada, aguardem. Alguns confrades me chamam de Mark. Apelido carinhoso que adotei e que alude o personagem central da obra-prima “Peeping Tom”, Mark Lewis. Acalmem-se, não sou psicopata! Meu nome verdadeiro é Aerton, primeiro presente que recebi de meu pai, ao nascer, e que “presente”! Recebi esta semana um email, de um tal de ‘Amonso Meli’ – fica claro que o rapaz, ou seja lá o que for, não usou seu nome verdadeiro-, o moço foi curto e grosso: “mais um chato desses tipinhos de Belém, pelo menos tem uns que colocam a foto, sem medo de apanhar”. Claro que não reproduzi o email todo, pois o menino tem a boca sujinha demais. Meu blog possui limitações, não posso me dar ao luxo de pregar meu rosto, feio e gosmento, no canto da tela. Ao Amonso, e a quem possa interessar, abri o post com um "presentinho". Só não me batam muito.

criado por Aerton Martins
17:03:13