27/2/08
Sonhos
Paris, junho de 1959. Truffaut, Chabrol, e Godard, estão sentados, na redação da famosa “Cahiers du Cinéma”. Permito-me conjecturar a reunião. Estavam conversando sobre a recente premiação de melhor direção para “Os Incompreendidos”, em Cannes.
Chabrol, com seu charuto, cachimbo, ou cigarro, reclamando das ‘dificuldades’ de finalizar seu terceiro longa, “A Double Tour”. Imagino o sorriso estampado no rosto de Truffaut, não pela premiação, mas pela chegada a Paris de filmes mestres. “Onde Começa o Inferno” de Howard Hawks; “Marcha de Heróis”, de John Ford e “Intriga Internacional”, de Alfred Hitchcock. Que sorte a do Truffaut.
Godard era o mais concentrado dos três. Coçava sua barba mal-feita, dava uma tragada em seu cigarro, tentava ler o rascunho de um roteiro, que o amigo Truffaut tinha lhe dado.
O autor de “A Mulher do Lado”, tinha se inspirado num episodio real, sobre um fugitivo da policia. Manhã de terça-feira, Godard vai atrás do produtor Georges de Beauregard, que há tempos procurava algo novo.
O produtor sentiu no “material”, e na animação do futuro cineasta, algo positivo. Segundo passo, achar uma estrela. Mas como contratar uma estrela para um filme com poucos recursos? Godard não queria uma estrela, queria Jean Seberg.
Seberg foi uma atriz norte-americana. Não foi difícil ter a presença dela no projeto do baixinho que falava rápido, “e que ninguém entendia direito”, nas palavras da própria. A Columbia mantinha contrato com a atriz, e não sabia o que fazer com ela, “cedeu” para Godard. O diretor franco-suíço, muito antes, havia trabalhado como assessor técnico, em “A Double Tour”, de Chabrol.
Foi nesse tempo que conheceu Jean Paul Belmondo. Godard viu no ator, de rosto feio, uma possibilidade. Belmondo só aceitou participar em “Acossado” por insistência de sua mulher.
Noite, agosto, 1959. O diretor fotográfico começava a filmar com sua câmera na mão. Não havia tripé, não havia travellings, não havia iluminação. Havia, apenas, uma forte sensação de liberdade.
A pequena equipe tentava acompanhar a rapidez do ‘baixinho’. Não havia roteiro, apenas folhas de indicações. Belmondo brincava com uma garota, nos intervalos. Godard moldava suas personagens com o decorrer dos dias, na rua, no banheiro, na mesa de jantar.
Madrugada, agosto, 1959. Godard tenta dormir em seu quarto, não consegue. Levanta-se, fuma, anda, escreve, fuma, anda… ”É a última vez”, diz em voz alta. “É muito cansativo improvisar continuamente”. Novembro, Decugis e Godard montam o filme. Duas horas e meia de material. “Como vamos fazer”? Pergunta Decugis. Godard opta em ‘cortar’ mais o Belmondo.
16 de Março, 1960. Estréia de “Acossado” em Helder, Scala, Balzac e Viviane. O público adora. A critica francesa é quase unânime. A ‘Nouvelle Vague’ morreu? Tenho pra mim que nem nasceu. Mas em algum momento houve sonhos… ”Acossado”, foi um deles.
criado por marklewis
17:56 — Arquivado em: 





Foi saboroso ver o primeiro capítulo da nova minissérie da ‘Rede Globo’. “Queridos Amigos” é o primeiro trabalho inteiramente da autora, Maria Adelaide Amaral, ‘dona’ , também, das famosas “A Muralha” e “JK”.
A nova empreitada global fez-me lembrar que este ano, o disco “The Beatles”, conhecido como “Álbum Branco”, completará quarenta anos. Foi em novembro de 1968 que a obra-prima dos ‘Fab four’ foi concluída.
Deu à louca no ‘Cine-Estação’, uma loucura positiva. Exibiu o “Planet Terror”, de Robert Rodriguez, e “Noel- Poeta da Vila”. É realmente estranho ver um filme de gênero no espaço. Por mais que o filme de Rodriguez seja medíocre como cinema, tenho que dar a mão à palmatória pela iniciativa. Ainda mais, junto com a biografia de Noel Rosa. Que o ‘estranho’ perdure.




O cinéfilo paraense que fica na cidade, e quer fugir da bagunça do ‘carnaval’, terá poucas opções para matar sua ‘fome’. Já o ‘filméfilo-moviecom’, se esbaldará até dizer chega. Tem o filme com o quase ator Selton Mello, um ator que ‘rouba’ todos os filmes que faz, por isso fico estressado quando vejo algo com ele, ‘só existe ele’, ‘não um filme’. É um ator simpático e, isso no Brasil, para a maioria, é muito.
Se existe um subgênero que me seduz é o de filmes de gângster. Como se esquecer do desfecho sublime do único filme palatável de Michael Curtiz, “Anjos de Cara Suja”? Da obra-prima “Scarface- A Vergonha de Uma Nação”, do versátil e Deus “Howard Hawks”? Das pavoras caretas - São lindas quando bem feitas, dizia Renoir-, do hipnotizante James Cagney, em “Fúria Sanguinária”, um dos poucos ‘tiros certos’ de Raoul Walsh? Um subgênero que nos legou obras lindas, que são credos para qualquer cinéfilo que se preze.
Outro filme que deve levar os espectadores belenenses ao ‘paraíso’, é o concorrente ao ‘Oscar’, “Desejo e Reparação”. O filme tem cara de ‘Oscar’, cheiro de ‘Oscar’, e deve ter um sabor de ‘Oscar’. Desse ovo choco eu não provo. Que os cinéfilos mais exigentes torçam para que, pelo menos, o ‘dramático’ filme de Joe Wright, deixe alguns premiozinhos para “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “Sangue Negro”. O Primeiro é dos irregulares, mas corajosos, “Irmãos Cohen”, e o segundo, do grande “Paul Thomas Anderson”. Só ganhando alguma estatueta é que eles têm chance de vir para Belém, poucas, mas já é um pingo de esperança.
Nos espaços ditos alternativos, apenas duas opções. A “nova” cópia, em 35 mm, da obra-prima do grande Ingmar Bergman, “Gritos e Sussurros”, que fica até dia 03, no ‘Cine Líbero Luxardo’. Um dos maiores cineastas do cinema faleceu dia 30 de julho de 2007, praticamente todas as cidades prestaram suas homenagens no mesmo ano, algumas até na mesma semana, diga-se. 
