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Paris, junho de 1959. Truffaut, Chabrol, e Godard, estão sentados, na redação da famosa “Cahiers du Cinéma”. Permito-me conjecturar a reunião. Estavam conversando sobre a recente premiação de melhor direção para “Os Incompreendidos”, em Cannes.
Chabrol, com seu charuto, cachimbo, ou cigarro, reclamando das ‘dificuldades’ de finalizar seu terceiro longa, “A Double Tour”. Imagino o sorriso estampado no rosto de Truffaut, não pela premiação, mas pela chegada a Paris de filmes mestres. “Onde Começa o Inferno” de Howard Hawks; “Marcha de Heróis”, de John Ford e “Intriga Internacional”, de Alfred Hitchcock. Que sorte a do Truffaut.
Godard era o mais concentrado dos três. Coçava sua barba mal-feita, dava uma tragada em seu cigarro, tentava ler o rascunho de um roteiro, que o amigo Truffaut tinha lhe dado.
O autor de “A Mulher do Lado”, tinha se inspirado num episodio real, sobre um fugitivo da policia. Manhã de terça-feira, Godard vai atrás do produtor Georges de Beauregard, que há tempos procurava algo novo.
O produtor sentiu no “material”, e na animação do futuro cineasta, algo positivo. Segundo passo, achar uma estrela. Mas como contratar uma estrela para um filme com poucos recursos? Godard não queria uma estrela, queria Jean Seberg.
Seberg foi uma atriz norte-americana. Não foi difícil ter a presença dela no projeto do baixinho que falava rápido, “e que ninguém entendia direito”, nas palavras da própria. A Columbia mantinha contrato com a atriz, e não sabia o que fazer com ela, “cedeu” para Godard. O diretor franco-suíço, muito antes, havia trabalhado como assessor técnico, em “A Double Tour”, de Chabrol.
Foi nesse tempo que conheceu Jean Paul Belmondo. Godard viu no ator, de rosto feio, uma possibilidade. Belmondo só aceitou participar em “Acossado” por insistência de sua mulher.
Noite, agosto, 1959. O diretor fotográfico começava a filmar com sua câmera na mão. Não havia tripé, não havia travellings, não havia iluminação. Havia, apenas, uma forte sensação de liberdade.
A pequena equipe tentava acompanhar a rapidez do 'baixinho'. Não havia roteiro, apenas folhas de indicações. Belmondo brincava com uma garota, nos intervalos. Godard moldava suas personagens com o decorrer dos dias, na rua, no banheiro, na mesa de jantar.
Madrugada, agosto, 1959. Godard tenta dormir em seu quarto, não consegue. Levanta-se, fuma, anda, escreve, fuma, anda... ”É a última vez”, diz em voz alta. “É muito cansativo improvisar continuamente”. Novembro, Decugis e Godard montam o filme. Duas horas e meia de material. “Como vamos fazer”? Pergunta Decugis. Godard opta em ‘cortar’ mais o Belmondo.
16 de Março, 1960. Estréia de “Acossado” em Helder, Scala, Balzac e Viviane. O público adora. A critica francesa é quase unânime. A ‘Nouvelle Vague’ morreu? Tenho pra mim que nem nasceu. Mas em algum momento houve sonhos... ”Acossado”, foi um deles.

criado por Aerton Martins
17:56:51
É bom saber que tenho amigos. A amizade, depois da mulher, e da sétima arte, foi à melhor invenção de Deus. Foi num desses atos de amizade, tão raros, que tive um dia maravilhoso.
Recebi um email de um amigo*, mandou-me uma lista, ‘das dez cenas marcantes do cinema’. A lista foi selecionada pelo blog “Futebol & Arte”. Tive que me agüentar na cadeira. O nome do blog já é engraçado. Não é todo dia que sou agraciado com listas como essa. Repare que não são ‘as dez cenas marcantes para “mim”, ou para “nós”’, no cinema’.
O(s) editor(es) deixam bem claro a imposição. São ‘as dez do cinema’, e pronto! É triste saber que o cinema, ainda, não é levado a sério. Faço questão de reproduzir a lista. Veja a piada:
1 - A arrepiante interpretação de Daniel Day-Lewis (o maior ator vivo) como Gerry Conlon na morte do pai, Giuseppe, em "Em Nome do Pai";
2 - A implosão do Cinema Paradiso no filme homônimo;
3 - Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) deitados sobre o lago congelado em "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Cena saturada de romantismo e simbolismo;
4 - A descoberta de Onoff (Gérard Depardieu) em "Uma Simples Formalidade";
5 - Elliot e E.T. na bicicleta que voa com o tema musical inesquecível de John Williams ao fundo(cena emblemática da minha infância);
6 - Forrest Gump descobre que tem um filho e pergunta a Jenny: "Ele é esperto?!" com lágrimas nos olhos. Tom Hanks GÊNIO!
7 -A hilária cena da crucificação em "A Vida de Brian" (Monty Python);
8 - A lendária sequência da mãe morta e o carrinho de bebê pelas escadarias em "Encouraçado Potenkim", que teria uma inspirada releitura em "Os Intocáveis";
9 - O tiro na menina no colo do pai em "Crash - No Limite" (A cena do filme deste século!);
10 - O final mais que surpreendente de "A Vida de David Gale".

Todo mundo deve conhecer o propalado filme “Meu Pé Esquerdo”, de Jim Sheridan. É dele a direção do primeiro filme da lista. O diretor começou sua carreira em 1989, acho que ele, provavelmente, deve estar finalizando algum filme sobre criancinhas mutiladas no Afeganistão. Um diretor “histórico”.
Seu ultimo filme foi sobre o rapper 50 Cent, de 2005. A atuação de Day-Lewis pode até ser razoável, mas atuação não faz cinema. “Em Nome do Pai” é o tipo de filme “quadro-negro”. Não precisava da câmera, só de algumas pedras de giz.

“Cinema Paradiso” é aquele filme que todos conhecem. Sobre o garotinho que cresce no cinema. É divido em duas partes. A primeira é até divertida, nem um naco de cinema, só dou risada em função das travessuras do garoto.
A ‘dita implosão’ acontece na segunda parte do filme, é de uma manipulação feia, nojenta. Tornatore não conhece o termo ‘sutileza’. Como a segunda parte não existe, é uma bagunça, não há o que discutir. "Uma Simples Formalidade", na lista? Creio que alguém do "Futebol & Arte" deve ser parente do Giuseppe Tornatore.



“Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” é do videoclipeiro Michel Gondry. Gondry foi para o “cinema”, mas sua cabeça não parava de pensar nos ‘filmezinhos curtos’.
Se for pra escolher videoclipe, fico com "Everlong", do Foo Fighters, que Gondry dirigiu. É muito mais cinema que seus filmes para o cinema. “Cena saturada de romantismo e simbolismo”, foi Paulo Coelho que escreveu essa?
Amo Monty Python, mas os caras não faziam cinema, vieram da televisão. Todo mundo sabe isso. Comentar “A Vida de David Gale” é ‘chutar cachorro morto’! “Forrest Gump” só serviu para dar apelido aos lesos e mentirosos de plantão. Se “E.T” possue algo de cinema, é apenas o ‘plano baixo’, o ‘olhar da criança’. Uma ‘esmola’ de Spielberg.
"Crash- No Limite" não faria feio nos ‘supercines’ da vida. Isso que eu chamo de filme ‘trash’. Muita intenção e zero de talento. Paul Haggis é um picareta promissor. Saia da frente!
E para finalizar, a mais engraçada. A única cena realmente importante serviu apenas de referência. De ‘tapete’ para outro filme ‘passar’. Coitada da obra de Sergei Eisenstein. Para quem levou a lista a sério, sinto muito. Não possue parâmetros para julgar o que é ‘Cinema’. Como os editores do blog dizem : “abraçamos este projeto caótico, para discutirmos sobre (quase) tudo e nada concluirmos”. E eu sou doido de contrariá-los? Apenas fico com minhas risadas, apenas...
* Pebertli é o nome do mago que me passou a lista. Abraços, mano.

criado por Aerton Martins
22:53:03
Foi saboroso ver o primeiro capítulo da nova minissérie da ‘Rede Globo’. “Queridos Amigos” é o primeiro trabalho inteiramente da autora, Maria Adelaide Amaral, ‘dona’ , também, das famosas “A Muralha” e “JK”.
A abertura, por mais superficial e boba que tenha parecido, me levou a um tempo que não vivi, mas é nele que ‘encontro’ a maioria das pessoas que admiro. Um recorte de filmes, cineastas, músicos, pintores, acompanhados pela voz da sublime “negra” Janis Joplin. Devo salientar, também, a força de vontade da diretora Denise Saraceni.
Fui tomado de assalto com aquela incorporação de “Godard”. Um jump cut- servindo um diálogo -, que deve ter feito muito telespectador gritar de raiva. Fazer algo na televisão é penoso, ainda mais no formato de minissérie. A televisão não emburrece, só acalma.
A nova empreitada global fez-me lembrar que este ano, o disco “The Beatles”, conhecido como “Álbum Branco”, completará quarenta anos. Foi em novembro de 1968 que a obra-prima dos ‘Fab four’ foi concluída.
Não é exagero afirmar que o disco contém toda a gênese musical que viria a seguir. É desse disco a canção “Long, Long, Long”, escrita e cantada pelo guitarrista George Harrison, a música contém toda a estrutura das canções do famoso grupo “Pink Floyd”.
Não me entenda errado, acho Pink Floyd um grande grupo. Mas todo mundo que tem a cabeça na terra, sabe da admiração que Roger Waters tinha pelos garotos de Liverpool. E que o "Pink Floyd", assim como todos os grupos que viriam a despontar mais tarde, como “The Who”, “The Kinks”, “Rolling Stones”, “The Stooges”, eram apenas grupos tentando emular o som dos ‘comportadinhos’ de terno.
É engraçado ler alguns textos falando sobre a influência que Bob Dylan teve no trabalho dos ingleses. Mas a 'aula', não se deu apenas de um lado, foi mútua. Dylan percebeu, com os ingleses, que eletrificar sua música, não era simples questão de modismo, era evolução. O Folk tradicional foi ‘embora’, o Rock ‘ficou’. O próprio Dylan deu a partida. Para quem conhece, e gosta do “Álbum Branco”, comemore desde já.
Deu à louca no ‘Cine-Estação’, uma loucura positiva. Exibiu o “Planet Terror”, de Robert Rodriguez, e “Noel- Poeta da Vila”. É realmente estranho ver um filme de gênero no espaço. Por mais que o filme de Rodriguez seja medíocre como cinema, tenho que dar a mão à palmatória pela iniciativa. Ainda mais, junto com a biografia de Noel Rosa. Que o ‘estranho’ perdure.
Um jornal local não teve pena e humilhou o conceito das ‘grindhouses’. Aquela velha arenga de generalizar. Associou as sessões-duplas somente aos filmes sanguinolentos. Usou o termo ‘trash’ de forma errada, erro que a maioria, infelizmente, ainda comete. Acho que Sergio Leone e Mario Bava devem estar tristes lá em cima.
Coitada da obra-prima "Vanishing Point", que saiu no Brasil como "Corrida Contra o Destino". Eu não percebi nem um zumbi no lindo ‘road-movie’ de Richard C. Sarafian, quando o vi. Acho que minha vista estava mal, só pode. Tem gente que confunde tudo, e o jornal aparece para confundir ainda mais. Por favor, tenham mais tato com seus textos. O termo ‘pesquisa’ não existe à toa.
Só para não perder o costume, o Cine-Líbero Luxardo, do centur, ainda continua com o longa “A Via- Láctea”, da diretora Lina Chamie. Dizem que ela captou 80% das imagens em digital mini-DV, e os 20% restantes em super-16 e 35mm. Só penso no coitado da parte técnica que contabilizou as porcentagens, para poder dar as informações. Veja o filme por mim, porque nessa lambança eu não entro.

criado por Aerton Martins
15:46:30

criado por Aerton Martins
17:07:45
Na sublime abertura de “Onde os Fracos não tem Vez”, somos testemunhas de doze planos, dos lugares ‘vitimas’ da violência, combinados com a melancólica narração da personagem de Tommy Lee Jones. O discurso sobre a violência ‘permeará’ a obra toda, seja por meio de diálogos ou pelo olhar cansado do xerife.
É no ‘fim’ da primeira seqüência que somos apresentados ao personagem Anton Chigurh, interpretado por Javien Barden. O assassino entra do extra-campo, algemado. No carro, um cilindro de oxigênio. Objeto que o acompanhará durante sua jornada. Em cena paralela, com o uso da câmera subjetiva, vemos, os cervos que Llewelyn Moss – vivido por Josh Brolin, que amadurece a cada filme -, pretende abater.

Na delegacia, Chigurh faz sua primeira vitima. A cena nos é dada através do lindo uso funcional da plongé e, de planos curtos. Vemos a(s) marca(s) da bota da vitima no chão e a expressão perturbadora do assassino. Quem nos serve é a ‘economia’. Do 'simples' temos a grandiosidade.
São nessas belíssimas seqüências que podemos comprovar a evolução imagética dos Irmãos Coen. Eles trabalham com detalhes riquíssimos. Difícil esquecer a cena onde o assassino lança o jogo do ‘cara e coroa’ ao frentista, a embalagem vazia sobre a mesa vai se abrindo e o som natural – ou como queiram, diegético- ‘rasga a imagem’.
Se alguns lançam o termo áudio-visual ao cinema, é nessa cena que encontraremos possíveis discussões. Os Coen mandam e desmandam em qualquer fiapo da narrativa. 'Subversivos', 'violentos', 'respeitosos'.

As elipses das seqüencias finais devem encontrar muitos detratores, mas são nelas que se encontra a clareza dos Irmãos. Em uma cena-chave, vemos em long-shot, o assassino, observando se o seu sapato está limpo. A cena é, no mínimo, uma prova de que os cineastas estudaram a ‘arte de como mostrar’.
Não li o livro, algum dia pretendo ler. Não sei se eles respeitaram o romance de Cormac McCarthy. Isso também não me interessa. Interessa-me apenas o ‘olhar’, neste caso, do cinema. E este, me foi concedido.

criado por Aerton Martins
18:48:24