Cinema na Mangueirosa

Dedicado aos que amam cinema. Nascidos na tão sofrida terra do 'já foi melhor'.

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01.07.08

Pierrot Le Fou na Sessão Maldita

 

Jean-luc Godard é um dos grandes pilares do cinema francês e de toda a história desta grande arte. Quando David Wark Griffith empunhou sua câmera, na primeira obra adulta do cinema, “Nascimento de Uma Nação”, em 1915, nascia ali uma arte genuína, que defendia sua linguagem, suas unidades e sua autonomia. Os irmãos Lumière deram ao mundo a máquina foto-reprodutora da realidade, mas foi o corajoso cineasta americano que desbravou o até então ‘filho’ do teatro e o elevou a condição de arte.

 

 

Após 45 anos do amadurecimento do cinema, na França, uma turma sorvia todos os gens da filmografia americana, e também percorriam diversos caminhos por quais diretores autorais deixavam suas marcas, de diferentes nacionalidades - Dinamarca, Itália, Japão, União Soviética - mas que tinham uma coisa em comum: ‘o respeito e fidelidade para com o cinema’. Nascia as páginas amarelas da famosa e sublime “Cahiers Du Cinema”, que depois deu como fruto uma grande turma denominada por jornalistas de “Nouvelle Vague”. E nesse terreno múltiplo, estava Jean-luc Godard, junto com seus confrades de ‘trabalho’: Jacques Rivette, François Truffaut, Claude Chabrol e outros sonhadores.

 

 

“Acossado”, o primeiro longa de Godard, nasceu em 1959, de um roteiro que Truffaut havia feito sobre um fato real. A obra mistura elementos de detetive, comédia e suspense, só que de um modo sincopado demais para os padrões da época. A barreira havia sido quebrada. A impressão Godardiana sobre os fatos não só do mundo, mas também, do cinema, estaria lançada. “Pierrot Le Fou”, 1965, é uma obra visceral, anárquica, experimental e carrega todos os emblemas que o diretor franco-suíço pregou em suas obras anteriores. Em “Pierrot Le Fou” temos o tom de liberdade anarquista, que fica difícil enxergar outro paralelo dentro da turma da “Nouvelle Vague”.O autor de “Viver a Vida” nos presenteia com um sublime jogo de signos.

 

 

Seu cinema levanta a questão do cinema, seus filmes falam sobre filmes. “Pierrot Le Fou” respira arte e propõe que o cinema pode andar de mãos dadas com as demais artes - pintura, literatura, quadrinhos, poesia visual - sem que estas clamem por alguma soberania. “Pierrot Le Fou” é uma obra de diálogos imagéticos e que lança o olhar de interrupção que norteia todo fragmento da narrativa ‘destruída’ - esta sim, de tom mais abrupto, pois Godard não tinha roteiro, tudo foi feito em função de um fluxo de linhas, “mal” riscadas, que o diretor tinha em seu caderno - e caminha perfeitamente com o embate de eixos: cinema de vanguarda e cinema clássico, cultura pop e cultura erudita, Samuel Fuller e Velasquez, vida e cinema, um não anda sem o outro e tudo é permitido no campo de batalhas de “Pierrot Le Fou”.

 

 

Jean-Luc Godard disse certa vez: “Houve um tempo em que talvez o cinema podia melhorar a sociedade, esse tempo se perdeu”. Com meia dúzia de travellings sublimes, planos expressivos, diálogos, luzes filtradas cheias de cor, Godard deixa escapar, que em “Pierrot Le Fou”, esse tempo é sentido.

AERTON MARTINS- APJCC. 


SERVIÇO: CINE LÍBERO LUXARDO (CENTUR)

SESSÃO MALDITA: PIERROT LE FOU

DIA 05 DE JULHO, SÁBADO, ÀS 21h30

ENTRADA FRANCA



“PIERROT LE FOU” DE JEAN-LUC GODARD

França. 1965. Cor. 110min.

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Dirk Sanders, Raymond Devos, Samuel Fuller.

 

27.06.08

Ciclo Samuel Fuller no 'Cinema na Casa'

 

Samuel Fuller nasceu em 12 de agosto de 1912, em Massachustes, EUA, e morreu em 30 de outubro de 1997. Depois de entrar na imprensa criminal, foi soldado e participou de dois desembarques em tropas de choque do exército americano. ‘Lutador’, homem de ação e de sentimentos. Debutou no cinema com a obra “Matei Jesse James”, uma visão cínica e mordaz sobre o assassino de Jesse James, Bob Ford. Nesta obra, somos apresentados a um dos grandes pilares de sua filmografia: ‘o amor que se transforma em violência’. Sua carreira é pautada nos famosos filmes de gênero: policial, guerra e faroeste.

 

 

Acusado de Comunista, anarquista, direitista, fascista e belicista, por jornalistas e críticos, Fuller não se deixava abater em seu “campo de batalha”. Legou-nos 25 obras ao longo de sua carreira. Entre elas estão às obras-primas “Beijo Amargo” (1964), visão cínica de uma cidadezinha hipócrita, e que serviu de base para “Twin Peaks”, famosa obra do diretor David Lynch, “Paixões que Alucinam” (1963), que narra a aventura de um jornalista, que finge ser louco para investigar um crime no manicômio, “Forty Guns” (1957), western feminista e radical, que quebra os cânones do gênero. Mudou-se para Europa, no fim dos anos 60, em função das dificuldades que Hollywood passava.

 

 

 

Na Alemanha filma episódios para a TV e “Em Ritmo de Assassinato” (1974), thriller que tem a famosa Beethovenstrasse como cenário principal, e que os alemães acharam desrespeitoso para com o país. Após um período difícil fora da América, Fuller daria ao público mais duas obras-primas, o filme de guerra “Agonia e Glória”, filme com nuances autobiográficos, e o famoso e maldito “Cão Branco” (1982), filme apedrejado pela critica em sua época, que conta a história de um cão treinado somente para atacar pessoas negras.

 

 

E é em cima de cinco dentre essas sete obras que o “Cinema na Casa” celebrará um dos maiores realizadores da sétima-arte. Samuel Fuller é o cinema ‘humor-negro’, seus fotogramas são ao mesmo tempo ousados e quietos. Privilegia a montagem com cortes secos e sua câmera invasora ensina o olhar cinematográfico. Influenciou diversos cineastas, de Jean-Luc Godard a Jim Jarmusch, de Martin Scorsese a Quentin Tarantino. Scorsese gritou ao mundo: “apreciar um filme de Fuller é ser sensível ao cinema, na sua própria essência: o movimento como emoção”.

AERTON MARTINS – APJCC.

 

Projeto ‘Cinema na Casa’: Uma parceria da Fundação Curro Velho com a APJCC- ASSOCIAÇÃO PARAENSE DE JOVENS CRITICOS DE CINEMA.- ‘FELLINIANOS’, ‘TRASHFORMAÇÃO’ E ‘CINE-UEPA’ . Ciclo Samuel Fuller, toda terça às 18h30, no auditório da Casa da Linguagem (Av. Nazaré, 31). ENTRADA FRANCA

 

Filmes:
01/07 – Matei Jesse James
08/07 – Paixões que Alucinam
15/07 – Beijo Amargo
22/07 – Agonia e Glória
29/07 – Dragões da Violência

 

 

 

 

 

17.06.08

"Em Busca da Obra"

 

Andrei Tarkovski vivia dizendo que seu maior sonho como cineasta era fazer um filme inteiramente em plano-sequência, só assim ele estaria em paz com a sétima-arte. Não foi à toa que um de seus discípulos, Aleksander Sokurov, realizou “Arca Russa” utilizando o artifício de filmar sem que haja cortes. Isso me leva a acreditar  na grande coragem que tomava conta da alma do grande M. Night Shyamalan, quando estava dirigindo “Fim dos Tempos”. Ele não estava pensando em seu público, nem nele, muito menos nos executivos. Estava pensando tão somente na dívida que tinha para com o cinema. “Fim dos Tempos” é uma obra que peita! Mais do que “A Vila” e “A Dama na Água” peitaram. “A Dama na Água” experimentou em cima de um conto de fadas, deixando um sabor cinemático em cada fiapo da narrativa.

 

 

“A Vila” ‘preteriu’ tanto o público em favor do cinema que nem seu subtexto ‘ralo’ estragou a diversão imagética, se tornando uma obra pungente em todos os sentidos. Em “Fim dos Tempos” vemos a destruição de qualquer convenção carola por qual uma narrativa classicista passaria . Um Personagem crucial é destruído sem o menor pudor: o senhor que dá a resposta para todo o acontecimento da trama. Um personagem ilustrativo, que permite o equilíbrio dramático com a cena da “conversa” entre a planta de plástico e o personagem vivido por Mark Wahlberg.

 

 

Atuações medíocres? Com toda certeza. Mas cinema não é atuação. Mensagens tortas para dar e vender? Talvez sim. Mas Shyamalan não acredita tanto em soluções para a sociedade, quer apenas brincar com elas. Assim como “brinca” e coloca suas obras onde bem entende. “Fim dos Tempos” pode até parecer frágil, pueril, sem sentido, mas em cada fotograma sua força é lançada, mesmo que pelos meios mais superficiais- Hitchcock foi o pai do “superficial” e um dos maiores gênios do cinema. Shyamalan, em sua recente obra e em toda sua filmografia, serve-se do cinema (o honesto e verdadeiro) o tempo todo. “Fim dos Tempos” nunca, com toda certeza, irá correr atrás de seu público: seu grito é muito “fraco”, “simplista”, "amador". A obra vai encontrar seus espectadores apenas se eles saírem em busca dela. David Wark Griffith, não se preocupe, tem gente cuidando muito bem do cinema aqui embaixo.


 

12.06.08

Feliz Dia



Dia dos namorados. Presentes, declarações de amor e traições. Grande dia. Estúpido dia. Dia de acordar suspirando. Dia de ver o sol mais lindo – apesar do céu nublado. Dia de ver a lua mais brilhosa. Dia de dar as mãos. Dia de sorrir mais. Dia de andar com cara de pateta pela rua. Dia de olhar para a namorada e dizer o quanto você a traiu, o mesmo vale para ela. Dia de temperar seu relacionamento com coisas mais saborosas. Dia de ver filmes românticos. Feliz dia a todos os pombinhos apaixonados.

11.06.08

Maldita Cancelada

Por motivos técnicos a sessão maldita do dia 14/06 foi cancelada. Imprevistos acontecem. Peço, em nome da APJCC, a compreensão do público paraense. O Mark pede um favorzinho a vocês, espalhem a noticia pela cidade. A nova data será divulgada. Falando em cinema, corram para ver o sublime épico chamado “Sangue Negro”, que entra hoje em cartaz e fica até domingo,15/06, no Cine Líbero Luxardo do Centur. Obra do futuro. “Sangue Negro” grita CINEMA para todos os lados. E ai de quem perder este sublime jogo operístico do autor do não menos sublime “Embriagado de Amor”.